SAMAÚMA

URBANO NOBRE NOJOSA

 
SAMAÚMA

o tecido vascular, xilemas e floema revelam a complexidade de veios alimentares das árvores que constroem um sistema complexo de trocas de energia, alimentos e seivas com todo tecido da própria árvore e das demais circunscritas na floresta.

Para Piter Wohlleben em seu best seller “A vida secreta das árvores” descreve o comportamento das espécies vegetais, em particular as de grande porte, nas florestas temperadas, no Oeste da Alemanha, no município de Hümmel. Nessa pesquisa, Wohlleben descobriu como as árvores são seres vivos com vida social-vegetativa complexa, que trocam nutrientes, informações entre si, protegem suas crias, organizam-se para combater invasores de forma coordenada e em alguns momentos parece serem capazes de aprender. 

Essa teia de conexões vegetativa demonstra uma certa inteligência vegetativa complexa em que pesquisadores apelidaram de “WOOD WIDE WEB” (rede subterrânea florestal) numa referência paródica a rede mundial WWW a internet. A conexão desta rede vegetativa ocorre com finíssimos filamentos pelo solo interligados por fungos. Fungos estes que ganham açúcares produzidos pelo processo de fotossíntese das árvores. Esses filamentos fúngicos criam uma rede de cooperação capaz de conectar toda floresta.

Nos trópicos, entre as árvores de grande porte, como totens na vastidão das florestas, como conexões entre o céu e a terra, existem o Jequitibá-rosa, a Peroba-rosa, Castanheiras do Pará e a Sumaúna (seiba penetrada) exuberante na Floresta Amazônica, atinge até 90 metros de altura, conhecidas como a árvore da vida e para os povo indígenas – a mãe de todas as árvores.

As suas raízes esparramam frondosamente alicerçadas na superfície como um vestido longo. Esse conjunto de raízes (Sapopemba/sacupema) são usados como instrumentos de comunicação pois, através de sua estrutura frondosa ressoa em toda a floresta os ecos da percussão vegetal, através do tecido vegetal da sumaúma, que é de fibra leve, resistente ao fogo e água, tornando-se um algodão capaz de substituir os enchimentos de colchões e almofadas, seus frutos e sementes produzem um óleo usado para fabricar sabão, pois possui propriedades medicinais e também são usados como fertilizantes.

Para a população indígena, o elemento mítico da mãe Sumaúma, encontra-se na conexão do universo espiritual através de um portal de passagem invisível embaixo de suas raízes. Nessa tradição mítica indígena, a árvore mãe também se tornou a incorporação de uma curandeira e protetora dos animais e das plantas da Amazônia. Entretanto, essa entidade espiritual não conseguiu ter força de proteção à fúria do capital grileiro-latifundiário, frente a degradação das florestas tropicais do pantanal e da Amazônia como meio de acumulação primitiva de capital.

Esses incêndios criminosos devastam vidas que extrapolam os índices estatísticos do Ministério do Meio ambiente. Esses biomas são as últimas fronteiras da sanha do capital grileiro-latifundiário do agronegócio, pois o descontrole irascível do grileiro-latifúndio para produzir comodities é capaz de destruir a natureza com sua fauna e flora, gente e bicho. Enfim, uma máquina de moer gente, bichos e florestas, em particular, das gentes das populações quilombolas, ribeirinhas e indígenas. Esses grileiros-latifúndios destruíram recordes de desmatamento nos últimos dois anos, chegando a um quarto do bioma do pantanal.

O descaradamente público e afronta dessa insensatez criminosa dos grileiros-latifundiários são justificados pelo pronunciamento virtual na Assembleia Geral das Nações Unidas, no dia 22 de setembro, do presidente Bolsonaro, que voltou a negar o problema do fogo criminoso e responsabilizou os povos indígenas pelas queimadas. Demonstrando que esse governo mente para encobrir esse crime ambiental.

 Entretanto, desde o ano passado, em que os grileiros-latifundiários dos biomas da Amazônia, Cerrado e Pantanal demonstraram força com o planejamento criminoso da ação do “Dia do fogo”, que iluminou as imagens dos satélites de controle ambiental. Claramente uma medida de força e violência. 

Entretanto, a produção agrícola não terá sucesso desejado, pois a proteção ambiental garante a produção de água. Sabemos que a terra não vale nada sem a água. Já como nos alertava Tom Jobim falando sobre nossas florestas: “Temos que plantar florestas, se a gente plantar floresta, a gente vai ficar muito rico e para entender de uma coisa, precisamos amar. Pois quando você ama, cria interesse, um olhar, um tipo de estudo. Acho que tudo o que fiz devo muito ao Brasil, sobretudo a este cenário, esta floresta, este mar imenso, estes peixes.”

Desde o dia primeiro de janeiro (2020), as queimadas varreram a fauna e a flora de 3.977.00 hectares, corresponde a 26,5% do pantanal, área equivalente a pouco menos que o Estado do Rio de Janeiro. Entretanto, através das imagens do satélite, podemos identificar os responsáveis por esse crime ambiental, os grileiros-latifundiários do agronegócio. 

As queimadas são criminosas. Portanto, chega de narrativas abstratas que falam de um homem de forma genérica como responsáveis pela ameaça à natureza. O desmatamento e a degradação do Cerrado, Pantanal e Amazônia são responsabilidades desses Grileiros-latifundiários do agronegócio.  Portanto, o “agro não é pop”.  Esse slogan ratifica a comunicação do incomunicável. Naquilo que Guy Debord denuncia em “Sociedade do espetáculo” de um “plano da pseudocultura espetacular, o projeto geral do capitalismo desenvolvido… () “a verdade desta sociedade não é mais do que a negação desta sociedade”.

A comunicação midiática da Globo em valorizar o agronegócio, através do slogan “o agro é pop”, é incapaz de informar a respeito da trama de destruição, desmatamento e envenenamento das terras e rios, a partir do capitalismo no Brasil, que desde  o Brasil-Colônia reproduz ciclos de predação, extração e destruição da natureza. Verdadeiras “Máquinas de moer gente” – como Darcy Ribeiro identifica em seu livro, O povo brasileiro, a respeito dos engenhos de açúcar no Nordeste colonial. Portanto, essa propaganda de defesa do agronegócio reproduz o signo ideológico do capital, como reforça o estudo da evolução dos signos, em conformidade com Filósofo Mikhail Bakhtin ao dizer que:

 “Não separar a ideologia da realidade material do signo (colocando-a no campo da “consciência” ou em qualquer outra esfera fugidia e indefinível). Não dissociar o signo das formas concretas da comunicação social (entendendo-se que o signo faz parte de um sistema de comunicação social organizada e que não tem existência fora deste sistema, a não ser como objeto físico). Não dissociar a comunicação e suas formas de sua base material (infra-estrutura).”

O signo do slogan o agro é pop! Expõe a contradição entre os interesses dos grileiros-latifundiários do agronegócio numa tensão entre exploração predatória da natureza como “recursos ou capitiais”, que através da ação violenta da grilagem garante a acumulação de capital primária, em conexão com uma memória histórica-social de uma matriz de exportador de comodities, desde o início da feitura desse país, que para ter crescimento econômico implica numa destruição sanguinária da natureza, povos indígenas e populações quilombolas e pequenos produtores da agricultura da família.

Para não separar a ideologia da realidade material do signo,  esse slogan revela a articulação de interesses da rede de televisão Globo e a maior cadeia do agronegócio de produção de proteína animal do mundo, que em 2020, a  JBS desbancou a Petrobras e se tornou a maior empresa do país em receita dessa rede de televisão.

   O horizonte histórico desse slogan demonstra a contradição dos interesses em perceber a natureza como “recurso do capital” e o horizonte de defesa de um viver ecológico e preservação de um território de povos nativos.  Os grileiros-latifundiários do agronegócio não possuem nenhum princípio ecológico de conservação ambiental, pois parte de um outro índice de valor social, político, cultural e ético, o valor do capital na acumulação primitiva de capital.

A persistência publicitária do slogan “o agro é pop” cria a repetição temática do discurso que justifica o desmatamento, como um mal menor, em compensação com a distribuição de renda da cadeia do agronegócio. Portanto, trata-se de uma falácia argumentativa e política, pois esse raciocínio econômico, com a petulância de um aparente discurso socialmente inclusivo e responsável. Entretanto, nesse negócio, quem ganha sempre, é a cadeia dos grileiros-latifundiários do agronegócio. E seu discurso do “agro é pop”. Portanto, confirma a reflexão bakthiniana, “a classe dominante tende a conferir ao signo ideológico um caráter intangível e acima das diferenças de classe, a fim de abafar ou de ocultar a luta dos índices sociais de valor que aí se trava, a fim de tornar o signo monovalente.” Essa unidade consensual precisa ser rasgada pela polifonia dos discursos das populações indígenas, ribeirinhas, quilombolas e dos pequenos produtores que são invisibilizados e silenciados por essa mídia do poder do capital e seus interesses de classe.   Enfim, todo signo ideológico vivo precisa ser crivado pelos discursos vividos na superfície do chão, no rastro do fogo, que revelam as tensões e interesses de classes em luta, em disputa política, econômica e de narrativas para marcar os territórios das terras brasilis.