Os espadeiros do sertão: a tradição revive quando é reinventada

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Fernanda Albuquerque Ceará Maia

Qual o significado da palavra ‘festa’? De acordo com o Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa, o termo possui seis conceitos:

1.Reunião alegre para fim de divertimento; 2. O conjunto das cerimônias com que se celebra qualquer acontecimento, solenidade, comemoração; 3. Dia santificado ou consagrado à celebração de um ato religioso; 4. Comemoração de uma festa; 5. Regozijo, alegria, júbilo; 6. Trabalheira, cuidado, barulho.

Para além de uma explicação objetiva e direta, a festa é um espaço de suspensão da vida cotidiana e, consequentemente, provoca a construção, dentro de um intervalo de tempo determinado, de um novo ambiente. É nesta extensão que se criam outro caráter de comportamento social entre os participantes do festejo, o surgimento de uma perspectiva singular em relação ao local determinado para ocorrer o ato e, principalmente, o livre-arbítrio para brincar.
A sociabilidade humana surge a partir das festividades. E, como ato ritualístico, seja ele em proporções macro – eventos grandes como, por exemplo, o Carnaval – ou micro – ao lado de familiares e/ou amigos -, é fundamental para a mente humana, pois permite que a pessoa encerre um ciclo para começar outro, a partir dessa ruptura com o cotidiano repleto de trabalho e deveres do ser.
A festa não está necessariamente ligada à felicidade e, por muitas vezes, pode estar relacionada ao encerramento de etapas, como o ritual fúnebre. Porém, o cancelamento do dia a dia para cultuar a morte proporciona a experiência da memória afetiva e corporal, coletiva e individual do ser com o processo do luto, necessário para a compreensão por parte da mente humana. Vale ressaltar que as cerimônias são diversas, de acordo com a cultura do coletivo que pratica o ato ritualístico, podendo adquirir características celebrativas, melancólicas, alegres e lamentosas.
O culto religioso segue a mesma lógica da festividade. No Brasil, principalmente no sertão, as celebrações estão associadas, mesmo que indiretamente, com o cristianismo. Na verdade, a fé cristã tem o histórico de se apropriar de outras religiões como estratégia para manter hegemônicos seu poder e cultura; por isso, muitas vezes, atos que possuem origem pagã ou de outras religiões acabaram sendo convertidos para a fé cristã, como, por exemplo, o culto ao fogo.
As manifestações populares do Nordeste, particularmente no sertão, estão relacionadas à religiosidade e, durante a época de São João, mês de junho, há as três principais festas para as três entidades: Santo Antônio (13/6), São Pedro (29/6) e São João (24/6). Um dos principais símbolos da temporada junina é justamente o fogo, elemento que, durante um longo período da História, foi utilizado pela civilização como arma para dominação, destruição e guerra.
Entretanto, em diversas religiões, a chama está relacionada à purificação e ao nascer do novo. A fogueira é um símbolo de reunião, o calor atrai as pessoas para a roda e é motivo de encontro para comer, conversar, encontrar conforto, fazer oferendas e rezar. Todos esses aspectos são fundamentais para a construção da manifestação popular e, consequentemente, da memória de uma sociedade. As festividades e o ato de brincar são essenciais para que o indivíduo cultive o seu Eu interior.
Ao suspender o cotidiano, o ser humano sai da realidade diária e ingressa em um espaço-tempo de catarse, crucial para a existência do Homo Sapiens. O ato de brincar, interagir com outros, sem intervenções externas, faz parte das mais diversas comunidades, como forma de preservar sua cultura, tradição e história.

1.1 A Guerra de Espadas em Senhor do Bonfim

Senhor do Bonfim – cidade localizada no centro norte do estado da Bahia, a 375 km da capital, Salvador – é conhecida como a Capital do Forró. A cidade também conserva forte tradição junina – período de festas popularmente chamado de o São João -, com quadrilhas, músicas e letras, que exploram a temática cultural e do cotidiano do sertão, seguidas de três principais instrumentos do ritmo: o acordeão, a zabumba e o triângulo.
As festividades contemplam comidas e bebidas típicas, como, por exemplo, milho, amendoim, fubá, pamonha, licor, quentão, dentre outras iguarias. Vale ressaltar que a qualidade e a proporção da manifestação popular do São João estão diretamente ligadas à colheita do ano: desde seu início, a celebração acontecia porque a terra havia dado muito fruto, o que significava garantia de riqueza, fartura e comida. Caso o período antecedente ao apanhamento das plantações tenha sido de muita chuva ou seca, a quantidade de alimentos nas mesas impactará a abundância ou a escassez de alimentos e iguarias para a festividade.
Por serem as comemorações juninas uma festividade católica, a religiosidade é presente durante todos os dias, inclusive aqueles anteriores e posteriores ao dia 23 de junho, tendo expressão, em realidade, durante todo o sexto mês do ano, com a realização de missas, reuniões familiares e agradecimentos pela boa colheita. Outro elemento presente nas festas juninas da cidade são as Alvoradas: caminhadas realizadas pelos moradores locais pelas ruas do município, guiadas pela fanfarra. Não há um nome de um criador nem uma história de qual foi a origem das Alvoradas: elas são simplesmente um costume dos habitantes e, conforme a maioria reporta, sempre aconteceram de forma orgânica e não organizada.
As andanças começam no primeiro dia do mês celebrado, antes de o sol nascer, e vão até o dia do festejo, sempre com o objetivo de convidar os vizinhos a acordarem e se unirem aos caminhantes, pois o dia de São João está por vir. Uma das principais Alvoradas são conhecida como a da Moenda, bar tradicional da cidade, e a da Gamboa, região com forte herança cultural, que ocorrem, respectivamente, nos dias 22 e 23. Todos os percursos começam nos seus bairros de origem, atravessam as principais ruas do município, realizam uma pausa em frente à igreja Catedral de Senhor do Bonfim, para cantar o hino de Senhor do Bonfim e, após o canto, seguir com o trajeto até o seu encerramento.
Ao lado disso, uma das principais cerimônias das festividades juninas que se destaca no município é a Guerra de Espadas. A Bahia possui 17 municípios que manifestam a cultura popular do espetáculo pirotécnico, desde a região do Recôncavo, Xique-Xique e Campo Formoso, até o extremo oeste baiano, na cidade de Barra do Rio Grande, localizada à beira do Rio São Francisco. Apesar de uma quantidade significativa de localidades, Senhor do Bonfim e Cruz das Almas são as regiões mais tradicionais e que se destacam na mídia nacional pela celebração da Guerra de Espadas.
Ambas as cidades apresentam caráter festivo forte e são conhecidas por suas cerimônias juninas, inclusive pela fabricação e manuseio do artefato espada. Apesar de os municípios terem a Guerra, as cidades divergem em relação à produção do artefato, às características da festa e ao comportamento do espadeiro – aquele que solta a espada –, do fabricante, do telespectador e do morador local, que reside na área em que se pratica todo o espetáculo.

Figura 1: Guerra de Espadas, em Senhor do Bonfim.
Crédito: Guto Peixinho (2013).

O artefato espada originou-se do buscapé, fogo de artifício tradicional de festas juninas nordestinas, principalmente na região de Pernambuco e Sergipe. A principal diferença entre os respectivos produtos é a explosão no final da queima do buscapé, enquanto a espada tem uma combustão completa e, quando há o estouro, ela é considerada pelos espadeiros e telespectadores um artefato de má qualidade. Quando isso ocorre, os moradores dizem que “deu chabu”, ou seja, ocorreu uma falha durante a soltura do objeto.
De acordo com as narrativas orais dos locais, há mais de 70 anos, um bonfinense chamado de Prexedes, apelidado de Prexé, pediu para que Manuel da Silva Martins, mais conhecido como Neném Fogueteiro, fabricasse um artefato capaz de espantar os rapazes que ficavam em busca da atenção de suas filhas, conhecidas por suas belezas únicas. No início, a soltura da espada gerava medo nos meninos, entretanto, ao perceber que o artefato não era nocivo, surgiu a brincadeira de desafiar o senhor Prexé a arremessar mais espadas. A partir disso, teriam nascido os ditados populares da festividade, como, por exemplo “galinhou prexéu!”, “solte essa”, frases ditas durante a brincadeira para desafiar seus oponentes a soltarem mais artefatos pirotécnicos contra os participantes.
José Martins da Silva, conhecido como Zé Cabide, filho de Neném Fogueteiro, conta que a história das expressões nasceu da brincadeira de os participantes jogarem espada uns nos outros, enquanto gritavam “galinhou prexéu”, ou seja, “só tinha essa”, como forma de incentivar o desafio. Quando uma pessoa soltava o artefato em outra, todos corriam e alguns contra-atacavam; assim o telespectador deixava de ser apenas observador da festa e devolvia o fogo de artifício para o dono, como forma de continuar o divertimento.
Zé Cabide conta que a tradição começou quando o seu pai não tinha condição de comprar o material necessário para a produção de espadas. Era um grupo de moradores de bairros nobres da cidade que fornecia a verba para que Neném Fogueteiro pudesse financiar a fabricação dos artefatos e, com isso, ele aproveitava as sobras dos materiais para criar as suas dúzias de espadas.
No início, eram dez dúzias de um morador, vinte dúzias de outro, até que Pedro Amorim, futebolista brasileiro e filho de comerciante bonfinense, fez a sua fogueira de ramo, que tem a base feita a partir do tronco de árvore e lenhas ao redor para serem acesas. É um costume dos habitantes fazerem a sua própria fogueira e competir entre si sobre qual é a maior ou qual atraiu mais moradores. Nesse caso, Pedro Amorim foi um dos primeiros a chamar atenção para a festividade e, desde então, a produção aumentou de tamanho. Com o passar das temporadas de São João, mais fogueiras surgiram e mais moradores se tornaram espadeiros.
Uma das principais particularidades dessa festividade é que ela ocorre apenas em uma noite do ano, 23 de junho. Nessa noite, grupos de espadeiros, compostos por familiares, vizinhos e amigos, passeiam pela vizinhança da região e são convidados a entrar na casa dos moradores para comer, beber, dançar e usufruir da hospitalidade dos residentes. Inclusive, até meados dos anos 1980, era costume os brincantes passarem de porta em porta para perguntar aos moradores se o São João havia passado por lá.
A música é essencial durante o festejo. Moradores convidam amigos, familiares e bandas para tocarem o Forró Pé de Serra, conhecido como forró tradicional. O ritmo é composto, na maioria das vezes, pelo trio de instrumentos acordeão, zabumba e triângulo.
Durante o trajeto, os espadeiros buscam as fogueiras de ramos, como dito anteriormente, são chamadas as grandes árvores postas nas ruas e cercadas de lenha, para serem acesas no final da tarde. Em seus galhos são presos prêmios, como cachaça, sapatos e outros objetos, para que, ao final da queima da fogueira, a madeira caia e os moradores possam pegar seus presentes. Entretanto, para pegar os melhores brindes, as pessoas tentam derrubar a árvore antes de o fogo consumi-la, ou seja, comê-la crua, e é o dever dos espadeiros defender a fogueira de ramos dos cidadãos.

Figura 2: Espadeiros defendendo a fogueira de ramos.
Crédito: Guto Peixinho (2013).

A Guerra de Espadas inicia-se após o escurecer do dia e se encerra após o último artefato ser aceso. Antigamente, a festividade e e as fogueiras estavam presentes em todas as avenidas, mas sempre houve os principais circuitos, com as maiores concentrações, que continuam sendo nas ruas Barão de Cotegipe, Doutor Costa Pinto e Júlio Silva.

Figura 3: Guerra de Espadas, em Senhor do Bonfim.
Crédito: Guto Peixinho (sem data).

É importante ressaltar que, por ser uma manifestação popular de curto período de tempo e centralizada em uma área, há uma concentração da manipulação dos fogos de artifícios, o que intensifica ainda mais o brilho e a quantidade de artefatos soltos. Além disso, da perspectiva das pessoas que não querem participar do festejo, o fato de o divertimento ter hora para começar e finalizar dava aos moradores a oportunidade de se deslocarem de suas casas ou evitarem as ruas específicas da Guerra, para não se envolverem nas comemorações, tendo assim, o livre-arbítrio para ir e vir.
Durante um período da história de Senhor do Bonfim, na década de 1980, havia a fogueira do prefeito, feita pelo órgão público local, que também disponibilizava as espadas, de forma gratuita, para incentivar os espadeiros a irem para as ruas, para o divertimento. Além de ser uma forma de apoiar os fabricantes locais, a iniciativa também tornou-se uma estratégia para aumentar as proporções do divertimento e, consequentemente, a chegada de visitantes de cidades vizinhas e o aumento da lucratividade de pequenos e médios comerciantes, durante a temporada junina.
Com o passar das décadas, Senhor do Bonfim tornou-se cada vez mais uma cidade turística, durante o São João, com empresas e grandes marcas passando a patrocinar festas privatizadas, com grandes atrações de outros estados. Essa intervenção de empresários e prefeitura impactou na forma de organizar as celebrações, antes feita por moradores, e houve uma perda de foco nas tradições da região, para dar espaço ao lucro do entretenimento. Entretanto, a Guerra de Espadas, na cidade, ainda permanece um festejo exclusivamente local e feito apenas por seus habitantes, sem intervenção externa.
Vale destacar que tanto a organização da festa como as regras determinadas pela comunidade ocorreram de forma consensual, espontânea e sem nenhuma imposição normativa do Estado. A festividade e todas as suas características foram se constituindo culturalmente e sem intervenção de terceiros, como forma de aumentar a beleza estética do espetáculo pirotécnico e continuar com o respeito pelos vizinhos, sejam eles participantes da festividade ou não.

1.2 A ciência da espada

É preciso lembrar que, para além da noite do dia 23 de junho, quando ocorre a Guerra de Espadas, há todo um ritual do fabrico do artefato, antecedendo o período junino. Em Senhor do Bonfim, existem quatro modelos do produto, com base no tamanho, brilho e potência, sendo do menor ao maior petrecho: o corisco, a limaita, a limalha e a cruz das almas – este último chegou na década de 1980, com a ascensão das espadas da cidade de Cruz das Almas, as quais, por possuírem outras características químicas, impactam bastante, consequentemente, na soltura do produto.
Todas as etapas da produção são tradicionais e até consideradas “arcaicas” pelos novos fabricantes, principalmente devido ao fato de o processo ser inteiramente feito de forma manual e detalhada. Caso haja alguma fase mal feita, a maior probabilidade é de “dar chabu”, ou seja, ocorrer a explosão do artefato, o que pode gerar ferimento ou queimadura no espadeiro. Como conta Matheus (nome fictício), fogueteiro da nova geração:
A espada boa é aquela que qualquer pessoa pode soltar e não vai ferir ninguém. A partir disso, a gente avalia a questão do brilho do artefato e potência. A minha prioridade é segurança e para ter isso há protocolos que têm que ser seguidos, todo passo a passo precisa ser bem executado, não pode deixar passar um detalhe, porque caso faça errado em uma fase, a seguinte já não dá mais certo.
O ritual da fabricação de espadas começa em novembro, com a extração da taboca, espécie de bambu típico do sertão. Há todo um misticismo em volta da extração da vegetação, cuja colheita deve ser feita em noite de lua cheia, assim não “dando bicho” na planta, como, por exemplo, o cupim, e o material não sendo danificado para as próximas etapas. Após a coleta do bambu, é realizado um cozimento e tratamento com vermicidas, para que não haja furos na taboca e ela seja mantida com qualidade até o fim do processo. No mesmo período, também é necessário encerar com parafina o cordão de sisal que será utilizado para amarrar o bambu.

Figura 4: Fogueteiro preparando o bambu.
Crédito: Guto Peixinho (2016).

Nos três meses anteriores ao período de junho, realiza-se, efetivamente, a fabricação do artefato, preenchendo-se o bambu com barro – tipo de argila -, enxofre, carvão, e salitre – adubo que pode ser comprado em lojas de fertilizantes -, além de pólvora negra e limalha – pedaços de ferro. Vale ressaltar que, antigamente, até o adubo era preparado pelos fogueteiros, com uma certa alquimia e receita de cozimento particular de cada um dos fabricantes. Já a pólvora negra é umedecida com álcool, para se diminuir sua potência explosiva e para a espada por estar molhada, não entrar em combustão: quanto mais seco o artefato fica, maior sua potência.
Há ainda que se observar uma das principais particularidades da espada de Senhor do Bonfim: o uso da limalha. A festividade local tem a cultura de prezar pelo brilho e não pela força do objeto. E isso está diretamente relacionado à quantidade de pedaços de ferro que são adicionados ao aparato, visto que, havendo um aumento da porção da limalha, a potência é reduzida, pois não é apenas a pólvora fazendo a combustão. Vale destacar que, para introduzir todos os componentes na taboca, é preciso bater, diversas vezes, com um macete, ferramenta similar ao martelo, com maiores proporções, e que serve para golpear, até que todo o volume preencha todos os espaços de forma compacta, para que não tenha ar naquele recinto, caso contrário, o artefato pode explodir.

Figura 5: Fogueteiros adicionando pólvora na espada.
Crédito: Guto Peixinho (2016).

Por fim, são feitos os furos nos artefatos, orifícios por onde sairá o fogo. Essa é uma das principais etapas do processo de artesanato. É fundamental que o buraco seja feito de forma proporcional ao diâmetro do bambu e à potência da espada (que pode ser alterada, devido ao tempo de secura e da força da pólvora), para que não haja a soltura do fundo ou da frente do bambu, ou seja, uma má fabricação capaz de gerar a explosão do produto. Para muitos, o furo equivale a 20% do diâmetro da taboca.

Figura 6: Fogueteiro realizando o furo na espada.
Crédito: Guto Peixinho (2016).

Caso o fogueteiro queira fabricar uma espada mais potente, ele reduz a pólvora, mas, se almeja uma espada com caráter mais brilhante e de chama alta, é aumentada a quantidade de limalha. Por ser um ritual de fabricação intenso e longo, o preparo do fabrico não é feito de um por um e, sim, é idealizada uma quantidade, que pode variar entre poucas ou dezenas de dúzias de espadas a serem preparadas, passo a passo, sendo todo o lote finalizado junto. Anteriormente, um dos principais fogueteiros da cidade, Reinaldo Joaquim, mais conhecido como Coelho, chegou a fabricar uma média de três mil dúzias de corisco, 1.200 dúzias de limaita, 1.200 dúzias de limalha e, aproximadamente, 400 dúzias de cruz das almas.
Fabricadas de maneira totalmente artesanal, o preparo das espadas é feito de forma individual e cada uma possui suas particularidades, de acordo com o seu fabricante. As etapas são meticulosamente calculadas, variando a proporção dos materiais, o brilho, a velocidade e a potência. O fato de ser artesanal faz com que muitos fogueteiros não queiram compartilhar seus segredos e formas de produção com outros espadeiros, pois há uma competição sobre qual artefato é mais bonito ou mais potente.
Em Senhor do Bonfim, há uma cultura de poucos fogueteiros e são eles que transmitem seus conhecimentos para os filhos e, assim, são passados os ensinamentos de geração em geração da família. Outro elemento relevante é que há etapas que podem ser padronizadas e, dessa forma, feitas em larga escala, com o auxílio de uma equipe, como, por exemplo, o cortar e cozer o bambu ou encerar seu cordão. Entretanto, processos como o furo são feitos pelo próprio fogueteiro, como forma de se certificar que sua espada não perca a qualidade e, também, para preservar os segredos do artefato. Matheus (nome fictício), fogueteiro da nova geração, revela:

Todo dia 13 de junho, antigamente, existia uma disputa dos fabricantes, que era na data de aniversário de um deles. Os fogueteiros se reuniam em um local e era cultural deles chegarem com algum segredo no seu artefato para ter uma novidade no processo de fabrico e uma competição de qual espada seria a melhor para soltar.

Mas, apesar de toda a tradição, o artesanato também inclui inovar e evoluir, a partir do momento em que o fabricante percebe um aumento na demanda. Coelho convidava todos seus entes queridos, sobrinhos e irmãos para que pudessem auxiliar no fabrico. De acordo com ele, era fundamental sua própria participação apenas durante o furo e na pesagem da pólvora.
Era um costume o fabricante contratar mais pessoas para uma produção capaz de suprir a demanda da festa, entretanto, por serem poucos os artesãos locais, era necessário encomendar espadas de cidades vizinhas, para prover todo o consumo.
Há uma alquimia durante o ritual de fabricação, que, como se disse, dura de novembro até junho. Apesar de a maioria dos fogueteiros da antiga geração não ter ensino superior ou, até mesmo, a escolaridade básica completa, eles detêm um conhecimento único, na forma de calcular a pesagem dos produtos, na manipulação da pólvora, na medição do tamanho do furo, no corte do bambu e em outras variáveis, para que haja uma espada de boa qualidade.
Zé Cabide comenta o início da sua participação no fabrico de espadas, ao lado do pai, Neném Figueiredo:

Desde quando nasci, já fui ali junto com o coroa. Dona Everaldina, minha mãe, também ajudava no fabrico, pisava em pólvora e tudo. Eu deixei de estudar. Meu pai nunca entrou na escola e, quando ele já era um pouco maior, começou a trabalhar na tenda de fogos de artifícios do seu cunhado, Ciro. Depois disso, não quis saber mais de escola. O negócio dele sempre foi esse e depois eu entrei junto, sempre ajudando em algo.

E Zé Cabide conclui:

Era a coisa mais linda que existia. Meu pai, ele não visava lucro, ele só queria mesmo ver quando era o dia de São João. Ele se vestia todo de branco… Até saiu em uma reportagem, há muitos anos atrás, de um jornalista que tinha aqui, sobre a brincadeira e a tradição. Meu pai estava lá todo de branco, sapato branco, chapeuzinho: “Neném Fogueteiro mais parece um sambista da escola de samba”. É, mas ele gostava de ver o brilho mesmo. O homem era exigente. Só trabalhava quem tinha consciência do negócio. Para fazer uma espada dura muito tempo. Tem todo o processo de começar a serragem da taboca, depois tem que cozinhar e deixar secar no sol o bambu, enrolar, adicionar o barro, a pólvora, um pouco mais de barro, tirar a parte, ou seja, o furo. É demorado.

Dos cinco fogueteiros entrevistados, todos concordam haver paixão pelo fabrico e pela ciência da espada. João (nome fictício), fogueteiro da nova geração, personifica bem esse sentimento:

O trabalho de fazer espada é muito árduo e sofrido mesmo. Não existe uma parte em que eles digam que a produção não é árdua. É tudo muito arcaico e artesanal. A nova geração não tem a coragem que o povo tinha. A gente brinca que, quando uma espada estoura ou quando falta alguma coisa, a gente diz que faltou amor porque é o amor que faz a gente fabricar. Quando o artefato fica feio, faltou amor, se você adicionar um pouco mais de limalha fica mais bonita. Ficou fraca? Faltou amor. Eu, particularmente, prezo pela tradição do cozimento do bambu, do enceramento, porque tudo é uma espécie de ritual. A gente faz com alegria, com licor e tudo. Tem lugares, em Sergipe, que os fogueteiros adicionam até cachaça na pólvora, a cultura lá é muito forte, é de arrepiar.

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