Decifrações no labirinto do tempo presente

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A representação do espaço prejudicial, isto é, um espaço de onde a atmosfera ainda não escapou de todo. Trata-se, neste caso, da atmosfera da imediatez , da obscuridade persistente e da desordem persistente no aqui e a agora, da proximidade. Por isso, para as perguntas: Onde começa a paisagem? Onde começa a objetivação coerente?, há somente uma resposta: além do espaço prejudicial, na distância em relação a ele, precisamente onde começa a desaparecer a obscuridade da imediatez justamente com suas ramificações. E como entre o sujeito e o objeto da contemplação sempre há esse singular espaço intermediário, justamente como espaço prejudicial sui generis, do qual a atmosfera da imediatez repentina ainda não foi retirada suficientemente, o difícil primeiro plano da imagem paisagística e seu problema correspondem, de forma metodologicamente precisa, à referida dificuldade da atualidade acontecendo, acontecendo no tempo. (BLOCH, Ernst. O Princípio Esperança – Vol. I. Trad. Nélio Schneider. Rio de Janeiro: UERJ & Contraponto, 2005, p.292.).

E trata-se igualmente do mesmo futuro: aquilo que está contido no ventre dos tempos, que é chamado a revelar aquilo que está contido no instante. (BLOCH, Ernst. O Princípio Esperança – Vol. I. Trad. Nélio Schneider. Rio de Janeiro: UERJ & Contraponto, 2005, p.293.).

Hudson Mandotti de Oliveira 1

O memoriar a história por meio de um olhar que distancia é essencial ao marxismo, uma vez que a experiência obscura desde sua raiz tende ao instante momento cuja presença é o ato de ver somente a aparência da coisa, o fatal intervalo entre instante presente e o passado esquecido, cujo futuro não se abre enquanto possibilidade antecipatória. Os fatos históricos retidos suscitam a reabertura dos arquivos, os sonhos que exigem reparação histórica para que devidamente abertos sejam o futuro esperado de uma transformação que encoraja os homens ao novo.
A imagem histórica, obscurecida devido a ação do tempo, necessita dessa coragem segundo pensamento de Bloch, de ler e reler os fatos, e apresentá-los de forma nítida. O distorcido e nostálgico passado, a imagem amada, temida em sua perpétua forma de mito ou tabu, deve ser arrancada das forças reativas e reapresentada enquanto força futuramente pretérita, cuja forma consciente nos ronda como doce ou pungente obsessão de um sonho comunal.
A plasticidade em Bloch, é princípio de rigor de uma urdidura tecida em vários elementos juntamente com a trama que denominamos de cenário da crise. O projeto de pesquisa se concentra nos textos elucidativos de juventude e maturidade do autor nas quais são destacadas algumas: (Geist de Utopie 1918, 1923 [Espírito da Utopia 1918,1923]; Thomas Müntzer– als theologe der revolution [Tomas Münzer – o teólogo da revolução; Erbschaft dieser Zeit [Herança desta época]; Das Prinzip Hoffnung – Band 3; [O Princípio Esperança – 03 volumes]; Atheismus Im Christentum – Zur Religion des Exodus und des Reichs [Ateísmo no cristianismo – A Religião do Êxodo e do Reino] e Experimentum Mundi, em torno dessas obras, orbitam o conceito messianismo e os processos possíveis de concreção na primeira fase da vida na qual o pensamento de Bloch situa-se entre os anos 1910 e a primeira metade dos anos 20. E que durante a leitura da obra original alemão de Ernst Bloch, foi necessário recorrer as traduções disponíveis para esclarecer a complexidade do texto. Isto se justifica durante o desenvolvimento da tese no corpo do trabalho e nas notas de referência.
O estudo sobre messianismo e marxismo em Bloch, nasce no projeto de mestrado intitulado de Dussel no caleidoscópio da filosofia contemporânea: origem, originalidade e problemas da filosofia da libertação, um fio condutor que levaria as particularidades do pensamento do filósofo alemão de Ludwigshafen am Rhein, e como o pensamento latino-americano absorve a particularidade messiânica e marxista em Bloch. Isto é perceptível, no ato da razão libertadora em Dussel (O filósofo latino-americano, expoente pensador da Filosofia da Libertação), que subsume o princípio esperança em Bloch, no sentido de pensar o momento material, formal procedimental, as mediações factíveis, constituir a chave crítica inserida desde a situação concreta que abarca de maneira nociva a humanidade, até os possíveis cursos de um ato revolucionário.2 As intersecções entre materialismo, judaísmo e cristianismo,3 explicitamente enunciadas por Ernst Bloch em Atheismus im Christentum. Zur Religion des Exodus un des Reichs, a ideia de aguardar com paciência na cruz de Cristo, aquele sofreu as ações das governanças de Israel e de Roma, mas também pela invocação da ressurreição e da vida.4 Em “Ética da libertação na idade da globalização e da exclusão”, Dussel, deixa de perceber que o sentido positivo da esperança não está essencialmente em uma intersubjetividade, mas sim em uma subjetividade e objetividade que constitui uma unidade do conhecimento no processo histórico, no qual ainda-não materialmente não se constituem de modo bipartido, ambas estão no processo da experiência imediata e mediata do desenvolvimento humano de modo simultâneo e não simultâneo. Todavia Dussel está correto em afirmar, a esperança enquanto docta spes em Bloch, é subsumida com princípio marxista de uma sociedade comunista,5 que se move ao longo da história, que ainda não produziu seu próprio conteúdo (Was-Inhalt)6, mas que se acha em curso. Um processo que por conseguinte se encentra, ele próprio, na esperança e no pressentimento, objetivo do ainda-não-acontecido (Noch-Nicht-Gewordenen)7 , no sentido do bem-que-ainda-não-aconteceu (Noch-Nicht-Gutgewordenen),8

(…) a consciência do front fornece melhor a luz para isso: a função utópica enquanto atividade do afeto expectante, a intuição da esperança, mantém a aliança com tudo que ainda é aurora no mundo. Assim, a função utópica compreende o aspecto explosivo, porque ela própria o é de forma muito condensada: sua ratio é a razão não debilitada de um otimismo militante. Da mesma forma o conteúdo ativo (Akt-Inhalt) da esperança evocado primeiramente em representações, explicado enciclopedicamente em juízos concretos -(Realurteilen), é a cultura humana na relação com seu horizonte utópico concreto. (…) a combinação docta spes, como afeto expectante na ratio, (…) a atitude coparticipante, cooperadora do processo, para a qual, desde Marx, o devir aberto não está mais cerrado metodicamente e o novum não é mais corpo estranho. 9

O marxismo enquanto pioneiro afirma Bloch, situado como topos de uma ótica científica, justamente ao elevar o status utópico do socialismo ao de científico.10 O processo de um horizonte concreto, segundo a compreensão de Dussel sobre Bloch, a mediação da matéria em carência que permite superar a lógica de uma plenitude material. Em que afirma Bloch em sua interpretação sobre Marx – o caminho iniciado pelo mundo e “sonho da coisa,” o fator objetivo não é suficiente, pois as contradições objetivas requerem constantemente um interação com a contradições subjetivas.11 Sem esta análise de acordo Bloch, a revolução é reduzida a um automatismo objetivista, a desmobilização da ação e da própria concreção possível.
Esta tese tem por objetivo expor o prisma específico do messiânico-político no pensamento filosófico de Ernst Bloch. O traço de uma messianidade inscrita na tensão tridimensional na temporalidade (passado, presente, futuro) que permanece tecendo a ação possível soteriológica manifesta onticamente na história. Isto remonta aos rudimentos de modos da existência mais antigos, resgatados mediante a ruptura na continuidade descontínua que subitamente reaparecem enquanto contradição no presente. Essa capacidade de realização não se esgota nas potencialidades externas, mas também a que substancialmente se forma na parte subterrânea da história. Nem pode se constituir no tempo homogêneo vazio, o que significa entender o seguinte problema: Qual a possibilidade real de esculpir um processo histórico revolucionário, cujas intersecções entre messianismo e marxismo sejam capazes de reverter os danos causados pelo Capital a vida humana? Por que a esperançar ativo em Bloch, é um elemento essencial ao marxismo? E por que, é possível encontrar nos desdobramentos históricos de pouca perspectiva, algum traço de radicalidade em uma existência cotidianamente manifesta enquanto vida reificada, banal e inautêntica?
Nesse sentido, o traço messiânico em Bloch, não possui soteriológicamente o traço heroico de um messias salvador, que trará o desfecho do sofrimento humano, mas sobretudo, a potencialidade coletiva dos próprios homens se libertarem dos grilhões. A transcendência que abre legitimamente a possibilidade do novum, que por meio das lutas constituem chaves de compreensão do próprio conteúdo do existir imanente. Seu pensamento se encontra na plasticidade da tradução multiforme do espaço-temporal-histórico, em que no restolho, a memória é narrada em enunciações potencialmente afetivas entre passado, presente e futuro, no qual requer distanciamento da própria experiência obscura humana na sua prática frívola e egóica, feita pela autoconsciência que passou a ser ato de produção cognitiva,12 concreção síntese de múltiplas, portanto, como afirma Marx, unidade na diversidade.13
Essa possibilidade coletiva de uma acepção é algo que melhor cumpre o ato vivificante do recordar partilhado, a história de homens e mulheres que fizeram da luta um ato de espera paciente, cuja ação meticulosamente cirúrgica é a pura expressão da docta spes, a esperança mediada pela consciência que ao fundir a corrente quente e fria, constitui a possibilidade de ressuscitar as memórias subterrâneas que não se limitam a uma perspectiva romântica, nem mesmo a uma forma gnosiológica fria, isto significa não permitir que se degenere as potencialidade imaginativas em algo que não possua força futura [Zukunft], e que a prática não se presentifique fixando no limite do próprio ato sem encontrar uma mediação possível.
A mediação para Bloch é o traço que surge como condição necessária para que a espera e a recordação, enquanto gnose-revolucionária encontre o seu significado mais radical no qual só será apreendido se as conotações forem confrontadas no intenso âmbito do possível, cuja experiência não só é transgressora, mas também transcende as determinações históricas. Esta memória material processualmente aberta, age a partir de traços inscritos historicamente pela subjetividade e objetividade enquanto unidade do conhecimento. Uma estrutura de ideias em que prevalece uma nova forma de filosofar que se arrisca a esvaziar dos desígnios de uma ortodoxia, para se aventurar no fio condutor hermenêutico alquímico de heréticas colorações, sem perder o cuidado exegético das intersecções entre messianismo e marxismo. O ato revitalizador para Bloch de ter no ateísmo a mais pura expressão de uma crença potencialmente concreta. A negação [Nicht], que possibilita a abertura do conhecimento, que em termos lógicos é capaz de uma ampliação da história, algo que se engendra desde o ventre, cuja indefinição gestada na amalgama entre messianismo e marxismo, especificamente irrompem com os recalques constituídos, descontruindo a forma acabada de suas representações que envolvem teoria e práxis. A práxis para Bloch, possui eschaton, cuja força de chegada e força futura que demonstram o rumo das transformações legítimas de uma humanidade ainda desconhecida [Unbekanntsein],14 isso implica que a memória faça sempre retorno ao ponto de partida shuv [שוב],15 recapitulando e percebendo os elementos ainda não mediados, para que exista a possibilidade de avançar em direção às grandes esperanças – Tiqvah [תקוה].16 Essa tensão enquanto relação de movimento [Bewegungsbeziehung]17, própria da temporalidade-histórica, exige que o conceito amplie seu significado na espacialidade em que desenvolvem-se teoria e práxis, entendendo que o horizonte de possibilidades é uma necessidade ôntica enquanto ser-não-para-si, que em sua expressão coletiva, encontra-se no não-acontecido obscuro18 do que ocorreu, mas também de suas carências no ainda-não-real,19 necessidades e expectativas, em que o ainda-não blochiano é a o esperançar recordado impulsionado pelo desejo de uma dupla revelação as evidências do humano desde o instante experiencial obscuro e a ausência dos elementos pretéritos, um grau enigmático em termos de conteúdo da essência, o cerne da matéria em desenvolvimento.20 A escuridão da experiência humana é, em última análise, nossa própria escuridão, afirma Bloch, sendo desconhecida para nós, algo que mascara a experiência, o ausente, como tudo aquilo que se dissolve neste estado dispersivo do sujeito.21
O messianismo marxiano em Bloch, engendra-se na destituição humana de um cenário distópico, que se encontra no ponto fulcral da paralisia do Moloch moderno. Segundo o filósofo o homem está preso em uma teia de valores que envolve, controla e reproduz sua forma de pensar e agir, negando-se a aceitar a abertura de um futuro antecipado, alimentado por impotentes ações incapazes de remover as obstruções causais que se erguem na trajetória do acontecimento histórico de si [Selbstbegegnung] e, por essa razão, o enigma resolvido da história aos moldes marxiano, é o despertar na naturalização do homem e na própria humanização da natureza. A consciência ainda-não-definível considerada por Bloch, o fator possível constitutivo que suprimi o temor da morte, uma ocorrência ainda-futura que impulsiona o homem de sua condição de paralisia, isso devido ao seu conteúdo ainda-não-fixável, que encontra o salto em relação ao que já constitutivamente insurgiu contra as determinações do destino trágico.

notas

  1. O artigo é parte da tese de doutorado em Filosofia com o título: A porta entreaberta: A plasticidade do messianismo político em, Ernst Bloch, defendida em 2021.
  2. DUSSEL, Enrique. Ética del discurso y ética de la liberación – Karl-Otto Apel, Enrique Dussel. Colección estructuras y procesos serie filosofia. Madrid: Trotta, 2004, p.364.
  3. DUSSEL, Enrique. Paulo de Tarso na filosofia política e outros ensaios. 1ª Edição. Trad. Luiz Alexandre Solano Rossi. São Paulo: Paulus, 2016, p. 53.
  4. A passagem referente no texto alemão (“Paulus, sogenannte Geduld des Kreuzes, aber auch Beschwoerung von Auferstehung und Leben”). O enunciado é claro aqueles que seguem o passo do nazareno terão o mesmo fim – tortura e morte, mas tende bom animo, pois o desejo de estar em Cristo vence a morte, e a destituição da própria lei, isto é, os homens não vivem mais segundo uma representação legislativa. (BLOCH, Ernst. Atheismus Im Christentum. Frankfurt am Main, Suhrkamp Verlag, 1968, pp. 32;157.).
  5. DUSSEL, Enrique. Ética da libertação na idade da globalização e da exclusão. Tradução de: Ephraim Ferreira Alves; Jaime A. Clasen; Lúcia M.E. Orth. Petrópolis/Rio de Janeiro: Vozes, 2000, pp. 457-458.
  6. BLOCH, Ernst. Das Prinzip Hoffnung -Gesamtausgabe in 16 Bänden Band 5, Kapitel 1-32. Frankfurt am Main: Suhrkamp Verlag, 1977, p. 166.
  7. Ibidem.
  8. Ibidem.
  9. BLOCH, Ernst. O Princípio Esperança – Vol. I. Trad. Nélio Schneider. Rio de Janeiro: UERJ & Contraponto, 2005, p.146.
  10. Ibidem.
  11. Ibidem, p.147.
  12. Ibidem.
  13. MARX, Karl. Grundrisse – Manuscritos econômicos de 1857-1858. Esboço da crítica da economia política. Tradução Mario Duayer & Nélio Schneider. São Paulo/ Rio de Janeiro: Boitempo & UFRJ, 2011, p.54.
  14. BLOCH, Ernst. Geist der Utopie, Erste Fassung Faksimille der Ausgabe von 1918 – Band. 16. Frankfurt am Main: Suhrkamp Verlag, 1971, p.372.
  15. Dicionário Bíblico Strong Léxico Hebraico, Aramaico e Grego de Strong. Barueri. SP: Sociedade Bíblica do Brasil. 2002, p. 1119.
  16. Ibidem, p. 1240.
  17. BLOCH, Ernst. Geist der Utopie, Erste Fassung Faksimille der Ausgabe von 1918 – Band. 16. Frankfurt am Main: Suhrkamp Verlag, 1971, p.372.
  18. BLOCH, Ernst. O Princípio Esperança – Vol. I. Trad. Nélio Scheneider. Rio de Janeiro: UERJ & Contraponto, 2005, p. 293; In: __. Geist der Utopie, Erste Fassung Faksimille der Ausgabe von 1918 – Band. 16. Frankfurt am Main: Suhrkamp Verlag, 1971, p.372.
  19. Ibidem.
  20. Ibidem.
  21. BLOCH, Ernst. Geist der Utopie, Erste Fassung Faksimille der Ausgabe von 1918 – Band. 16. Frankfurt am Main: Suhrkamp Verlag, 1971, p.372.

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