DOCUMENTOS DE TORTURA,
DOCUMENTOS DE BARBÁRIE

Publicado por

Urbano Nojosa

“[…] “Candelária,
Carandiru,
Corumbiara,
Eldorado dos Carajás.
A pedagogia dos aços
golpeia no corpo
essa atroz geografia.
Se calarmos,
as pedras gritarão…”
Pedro Tierra”

Paulo Galo Lima queimou o monumento institucional Borba Gato e provocou a maior celeuma entre os conservadores da memória de São Paulo.
Os monumentos são documentos da barbárie como já anunciava Walter Benjamim em seu texto da tese sobre o conceito de história de 1940: “A presa, como sempre de costume, é conduzida no cortejo triunfante. Chamam-na bens culturais. Eles terão que contar, no materialismo histórico, com um observador distanciado, pois o que ele, com seu olhar, abarca como bens culturais atesta, sem exceção, uma proveniência que ele não pode considerar sem horror. Sua existência não se deve somente ao esforço dos grandes gênios, seus criadores, mas também à corveia sem nome de seus contemporâneos. Nunca há um documento da cultura que não seja, ao mesmo tempo, um documento da barbárie (2005, p. 70).”
Os documentos da cultura revelam o cortejo de triunfo para justificar a cultura vigente como documento da barbárie e memória histórica dessa violência organizada das classes dominantes, revelando o documento da história dos vencedores como legítimos enaltecedores de glórias meritocráticas, independente da carnificina necessária para conquistar o botim da acumulação de capitais.

Como declara Benjamim:

“A luta de classes, que um historiador escolado em Marx tem sempre diante dos olhos, é uma luta pelas coisas brutas e materiais, sem as quais não há coisas finas e espirituais. Apesar disso, estas últimas estão presentes na luta de classes de outra maneira que a da representação de uma presa que toca ao vencedor. Elas estão vivas nessa luta como confiança, como coragem, como humor, como astúcia, como tenacidade e retroagem ao fundo longínquo do tempo. Elas porão incessantemente em questão cada vitória que couber aos dominantes (2005, p. 58).”

Esses documentos da barbárie trazem no presente a memória secular do passado como conquista e heroísmo, e torna-se um inventário do botim dos vencedores.
Os bens culturais nos quais os monumentos estão inclusos presentificam a cultura do passado, como também pertencente a esse tempo histórico do presente.
O personagem histórico Borba Gato, depois do assassinato do fidalgo D. Rodrigo de Castelo Branco, viveu como foragido nos sertões do Rio Piracicaba até 1698, quando comprou a carta patente de lugar tenente, ao então governador Arthur de Sá e Menezes em São Paulo, que o liberou da punição com o perdão. Prática do recente

passado histórico ainda presente nas práticas de poder em 2021. Por isso, o entregador de aplicativo Paulo Galo Lima, criador do movimento dos Entregadores Antifascistas, assumiu a autoria e voluntariamente se apresentou a delegacia do 11º Distrito Policial de Santo Amaro para denunciar esse presente necrófilo das tramas do poder.
Em reportagens, Paulo Galo clamou o ato político em tais termos: “Ele não merecia esta estátua. Ele matava gente. Estuprava crianças indígenas.” A fogo como símbolo regenerador e purificador abriu essa cicatriz da violência de formação do imaginário cívico dos bandeirantes. Assassinos de indígenas!
O ato de Paulo Galo criou um acontecimento de cremação ritual, para ressignificar o passado de Manoel Borba Gato e responsabilizá-lo por caçar e vender mais de 300.000 índios para os senhores do engenho do Nordeste, conforme Darci Ribeiro em sua obra “O Povo Brasileiro”. O fogo purificador desse ato político segue uma série histórica de protestos mundiais contra monumentos símbolo da violência da acumulação primitiva do capital internacional, denunciando a mitificação monumental desses sujeitos na história como pecha, um desvio moral, a expressão do estado como violência organizada.
Nessa série histórica de purificação dos monumentos históricos, em 2020, a estátua do traficante escravocrata do século XVII, Edward Colston, de 1895, teve o mesmo destino no porto em Bristol – Reino Unido.
Portanto, a questão nunca foi a ação violenta de destruir monumento, mas ao contrário, a destruição dos monumentos certos. A lista de monumentos que revelam a história da barbárie pode e deve ser destruída sem nenhum constrangimento.
Robert Kurtz publicou o Livro Negro do Capitalismo (1999), publicação identificada de forma apocalíptica, em que sua análise da economia política a partir da crítica do valor, revelam que a história do capital é uma história de violência sistemática, pois o capital como trabalho morto é a expressão da transferência de riqueza produzida pelo trabalho vivo naquela fração que não é paga do mais valor.
A crítica do valor extrapola a relação mercantil direta e demonstra a personificação do trabalho morto no capital, a própria expressão violenta da ação política da acumulação de capitais.
O ato político de queimar Borba Gato reacende os conflitos históricos e seus monumentos da barbárie do capital. esse ódio performativo da ação de Paulo Galo deve estender para outros documentos vivos da ultradireita fascista que empoderou-se no Brasil. Responsáveis pelo morticínio da população brasileira.
Entretanto, destruir monumentos nunca foi um problema desde que estes monumentos representem os perdedores da história, pois os monumentos do capital são refinos culturais. Civilização!
Recentemente na história brasileira, o monumento Eldorado Memória, cujo projeto e doação de recursos do próprio Oscar Niemeyer para homenagear os dezenove sem-terra mortos num massacre de Eldorado de Carajás, foi destruído depois de duas semanas de sua inauguração por latifundiários da região. Apesar do apoio dos movimentos de defesa dos direitos humanos, prefeitura de Marabá e o Governo Federal.
O monumento Eldorado Memória, uma placa de concreto retangular de quatro metros com o desenho de um ancinho ao centro, segurado por uma mão e posto a frente de dois olhos abertos, com a palavra de ordem “A terra também é nossa”, acompanhada da denúncia:

“Testemunhamos para contar a nossos filhos e suas gerações:

Governava o Brasil em 17 de abril de 1996, dia do massacre, o presidente Fernando Henrique Cardoso. Era Governador do Pará o Dr. Almir Gabriel, que determinou a operação.Deu ordem de tiro o Cel. Mário Colares Pantoja […]”

No entanto, nem se cogitou a possibilidade de reerguê-lo diante de um ato tão violento.
Outro memorial que sofreu da mesma sina, foi o memorial Nove de Novembro, também concebido por Oscar Niemeyer em memória dos três trabalhadores da Cia Siderúrgica Nacional, mortos pelo exército brasileiro, durante a greve dos operários de 1968.
Ambos foram destruídos e jamais reinaugurados, uma verdadeira pá de cal nos monumentos e na memória de luta dos trabalhadores brasileiros. Portanto, destruir monumento em memória da classe trabalhadora, não possui nenhum cuidado, nem indignação por parte dos preservadores da memória histórica do Brasil.
Entretanto, monumentos que glorificam a expansão bandeirante, desbravador escravocrata deve ser punido de forma exemplar. Enfim, os monumentos dos oprimidos são suas lápides. Os monumentos dos oprimidos são seus corpos, como marcas da violência, em estatísticas frias… Não existe dominação e exploração sem o controle dos corpos e seus territórios. Seus corpos foram/são memórias da violência: marcas dos estupros, açoites, castigos, marcas de ferro em brasa, coleiras de correntes, mordidas de cães, cacetetes, tiros à queima-roupa. Corpos dóceis, disciplinados e matáveis. Corpos efêmeros! Corpos que, para o fato existirem, precisam resistir. Enfim, quem deseja Borba Gato de pé defende que a barbárie não acabe nunca….

“Corpos-monumentos de 09 de novembro de 1988:

William Fernandes Leite, Valmir Freitas Monteiro e Carlos Augusto Barroso.”

Também, em memória, aos Corpos-monumentos da chacina de Eldorado dos Carajás da Página do MST:
“1. ALTAMIRO RICARDO DA SILVA, 42 anos, casado, agricultor, filho de Juventino da Silva e Filomena Maria da Silva. O laudo cadavérico comprovou que sua execução ocorreu após ter caído ao solo em virtude dos disparos recebidos nas pernas.

  1. ANTONIO COSTA DIAS, 27 anos, casado, filho de Conceição Alves de Souza (não consta o nome do pai). Morreu com dois tiros no peito.
  2. RAIMUNDO LOPES PEREIRA, 20 anos, solteiro, (não consta a filiação). Morreu com três tiros, dois na cabeça e um no peito. Havia marcas de tentativa de defesa.
  3. LEONARDO BATISTA DE ALMEIDA, 46 anos, casado, filho de Raimundo de Souza e Luiza Batista. Morreu devido a agressão no rosto de algum instrumento pérfuro-cortante (faca, punhal, etc).
  4. GRACIANO OLIMPIO DE SOUZA (BADÉ), 46 anos, casado, (não consta a filiação). O laudo cadavérico descreve a morte como decorrente de tiro na cabeça. Foram

passado histórico ainda presente nas práticas de poder em 2021. Por isso, o entregador de aplicativo Paulo Galo Lima, criador do movimento dos Entregadores Antifascistas, assumiu a autoria e voluntariamente se apresentou a delegacia do 11º Distrito Policial de Santo Amaro para denunciar esse presente necrófilo das tramas do poder.
Em reportagens, Paulo Galo clamou o ato político em tais termos: “Ele não merecia esta estátua. Ele matava gente. Estuprava crianças indígenas.” A fogo como símbolo regenerador e purificador abriu essa cicatriz da violência de formação do imaginário cívico dos bandeirantes. Assassinos de indígenas!
O ato de Paulo Galo criou um acontecimento de cremação ritual, para ressignificar o passado de Manoel Borba Gato e responsabilizá-lo por caçar e vender mais de 300.000 índios para os senhores do engenho do Nordeste, conforme Darci Ribeiro em sua obra “O Povo Brasileiro”. O fogo purificador desse ato político segue uma série histórica de protestos mundiais contra monumentos símbolo da violência da acumulação primitiva do capital internacional, denunciando a mitificação monumental desses sujeitos na história como pecha, um desvio moral, a expressão do estado como violência organizada.
Nessa série histórica de purificação dos monumentos históricos, em 2020, a estátua do traficante escravocrata do século XVII, Edward Colston, de 1895, teve o mesmo destino no porto em Bristol – Reino Unido.
Portanto, a questão nunca foi a ação violenta de destruir monumento, mas ao contrário, a destruição dos monumentos certos. A lista de monumentos que revelam a história da barbárie pode e deve ser destruída sem nenhum constrangimento.
Robert Kurtz publicou o Livro Negro do Capitalismo (1999), publicação identificada de forma apocalíptica, em que sua análise da economia política a partir da crítica do valor, revelam que a história do capital é uma história de violência sistemática, pois o capital como trabalho morto é a expressão da transferência de riqueza produzida pelo trabalho vivo naquela fração que não é paga do mais valor.
A crítica do valor extrapola a relação mercantil direta e demonstra a personificação do trabalho morto no capital, a própria expressão violenta da ação política da acumulação de capitais.
O ato político de queimar Borba Gato reacende os conflitos históricos e seus monumentos da barbárie do capital. esse ódio performativo da ação de Paulo Galo deve estender para outros documentos vivos da ultradireita fascista que empoderou-se no Brasil. Responsáveis pelo morticínio da população brasileira.
Entretanto, destruir monumentos nunca foi um problema desde que estes monumentos representem os perdedores da história, pois os monumentos do capital são refinos culturais. Civilização!
Recentemente na história brasileira, o monumento Eldorado Memória, cujo projeto e doação de recursos do próprio Oscar Niemeyer para homenagear os dezenove sem-terra mortos num massacre de Eldorado de Carajás, foi destruído depois de duas semanas de sua inauguração por latifundiários da região. Apesar do apoio dos movimentos de defesa dos direitos humanos, prefeitura de Marabá e o Governo Federal.
O monumento Eldorado Memória, uma placa de concreto retangular de quatro metros com o desenho de um ancinho ao centro, segurado por uma mão e posto a frente de dois olhos abertos, com a palavra de ordem “A terra também é nossa”, acompanhada da denúncia:

“Testemunhamos para contar a nossos filhos e suas gerações:

Governava o Brasil em 17 de abril de 1996, dia do massacre, o presidente Fernando Henrique Cardoso. Era Governador do Pará o Dr. Almir Gabriel, que determinou a operação.Deu ordem de tiro o Cel. Mário Colares Pantoja […]”

No entanto, nem se cogitou a possibilidade de reerguê-lo diante de um ato tão violento.
Outro memorial que sofreu da mesma sina, foi o memorial Nove de Novembro, também concebido por Oscar Niemeyer em memória dos três trabalhadores da Cia Siderúrgica Nacional, mortos pelo exército brasileiro, durante a greve dos operários de 1968.
Ambos foram destruídos e jamais reinaugurados, uma verdadeira pá de cal nos monumentos e na memória de luta dos trabalhadores brasileiros. Portanto, destruir monumento em memória da classe trabalhadora, não possui nenhum cuidado, nem indignação por parte dos preservadores da memória histórica do Brasil.
Entretanto, monumentos que glorificam a expansão bandeirante, desbravador escravocrata deve ser punido de forma exemplar. Enfim, os monumentos dos oprimidos são suas lápides. Os monumentos dos oprimidos são seus corpos, como marcas da violência, em estatísticas frias… Não existe dominação e exploração sem o controle dos corpos e seus territórios. Seus corpos foram/são memórias da violência: marcas dos estupros, açoites, castigos, marcas de ferro em brasa, coleiras de correntes, mordidas de cães, cacetetes, tiros à queima-roupa. Corpos dóceis, disciplinados e matáveis. Corpos efêmeros! Corpos que, para o fato existirem, precisam resistir. Enfim, quem deseja Borba Gato de pé defende que a barbárie não acabe nunca….

“Corpos-monumentos de 09 de novembro de 1988:

William Fernandes Leite, Valmir Freitas Monteiro e Carlos Augusto Barroso.”

Também, em memória, aos Corpos-monumentos da chacina de Eldorado dos Carajás da Página do MST:
“1. ALTAMIRO RICARDO DA SILVA, 42 anos, casado, agricultor, filho de Juventino da Silva e Filomena Maria da Silva. O laudo cadavérico comprovou que sua execução ocorreu após ter caído ao solo em virtude dos disparos recebidos nas pernas.

  1. ANTONIO COSTA DIAS, 27 anos, casado, filho de Conceição Alves de Souza (não consta o nome do pai). Morreu com dois tiros no peito.
  2. RAIMUNDO LOPES PEREIRA, 20 anos, solteiro, (não consta a filiação). Morreu com três tiros, dois na cabeça e um no peito. Havia marcas de tentativa de defesa.
  3. LEONARDO BATISTA DE ALMEIDA, 46 anos, casado, filho de Raimundo de Souza e Luiza Batista. Morreu devido a agressão no rosto de algum instrumento pérfuro-cortante (faca, punhal, etc).
  4. GRACIANO OLIMPIO DE SOUZA (BADÉ), 46 anos, casado, (não consta a filiação). O laudo cadavérico descreve a morte como decorrente de tiro na cabeça.

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