Portas do purgatório

Publicado por

Urbano Nobre Nojosa

Crise de 2008: Portas do purgatório
A crise econômica e financeira de 2008 assolou o mundo e relembrou a todos nós da sentença da revolução francesa “tudo que é sólido se desmancha no ar”, pois a capacidade de transformação das instituições e formas políticas de compreender a vida aconteceu de maneira acelerada, em todas as esfera do Estado, com transformações de caráter jurídico e governabilidade. O ressurgimento do fantasma da crise como mecanismo de colapso social, desmonta um dogma da economia política — a impossibilidade do fim do capitalismo.

As próprias coordenadas básicas da consciência mudarão, uma vez que vivemos hoje num estado de negação fetichista coletiva: sabemos muito bem que alguma hora isso acontecerá, mas ainda assim não acreditamos que possa realmente acontecer. O esforço dos Estados Unidos para tentar impedi-lo com ações preventivas contínuas é uma batalha perdida de antemão: a própria ideia de que possa fazer isso se baseia numa visão fantasmática. (ZIZEK, 2012, p. 12)
O assombro da crise impactou os dogmas da economia política, pois impôs uma ruptura com os modelos teóricos da matemática financeira, que admitiam serem capazes de criar soluções teóricas capazes de justificar o prolongamento do modo de produção capitalista como verdade inquestionável. Entre seus dogmas políticos, predominam a desregulamentação e da auto-regulação do mercado, pois esses dois pressupostos têm como crença que o sistema financeiro teria a capacidade de controlar a emissão de títulos financeiros em sintonia com a produção de riqueza da sociedade, mediados por critérios científicos e seus modelos matemáticos, com simuladores virtuais capazes de aferir fundamentos da macro e micro-economia. A corda dessa operação financeira foi esticada desproporcionalmente, visto que, emprestaram 10 vezes o PIB mundial.1 Diante dessa crença, os estados nacionais seguiram a baila da diretriz política-econômica norte-americana estadunidense, que conduziu sua economia à extrema desregulamentação, pois:

despreocuparam-se em monitorar e regulamentar as “inovações” do mercado financeiro (como é o caso dos chamados títulos subprime, ou “derivativos”). Ao contrário, a liberdade do mercado, a ausência de controles mais rígidos, era vista como uma peça essencial para a construção de mercados financeiros “globais”. Com isso, estimulou o processo de financeirização da economia, que é a riqueza produzida na forma de “papéis” (títulos públicos, ações, títulos derivativos etc.), descolada da riqueza produzida na economia real, produtiva. (http://www.teoriaedebate.org.br/index.php?q=materias/mundo-do-trabalho/modelo-liberal-e-crise-financeira&page=0,0????? )

Essa decisão na desregulamentação extrema da economia americana, expressava a convicção científica da economia política clássica e neoclássica, que percebe a produção capitalista, como algo insuperável, intransponível e eterna. Uma crença nesse domínio científico da doutrina econômica (neo)liberal, que fora incapaz de antecipar qualquer variável capaz de gerar a crise financeira de 2008 pois, diante da expectativa e euforia de crescimento econômico das últimas décadas, não seria possível pensar em qualquer crise econômica e financeira em escala mundial, ou quando se imaginava uma crise, ela seria de caráter local e/ou contingencial de economias regionais e/ou locais, específica de países e empresas com limitações administrativas. Essa crise americana de 2008, que tornou-se uma crise de escala mundial, faz com que o mapa da competição entre capitais, demonstre a complexidade dessa concorrência também entre estados e regiões. Na luta para fugir da crise temos a tensão entre perdedores e vencedores, em que as baixas desses conflitos arrastam estados e até continentes inteiros que estão reféns dessa disputa entre capitais. Por isso, Robert Kurz, percebe a dificuldade de realização dos capitais, pois:

Quanto mais Estados, regiões, unidades empresariais e indivíduos assumem o status de perdedores, tanto mais capacidade aquisitiva produtiva internacional é destruída. O conjunto dessa capacidade aquisitiva desaparecida não pode jamais ser substituída e revitalizada artificialmente, por meio de créditos. Por outro lado, vão se expandido o crédito e o endividamento e, por outro, vai diminuindo o potencial global de capacidade aquisitiva. Esses dois movimentos opostos sobrepõem-se um ao outro de tal forma que de cada ciclo de realização de mais-valia, por parte dos vencedores, sobra um resto cada vez maior que não pode ser aplicado produtivamente nem emprestado diretamente como capital monetário que rende juros. (KURTZ, 1996, p. 215)

Em um olhar histórico, analisando a crise de 1929, que fomentou um processo recessivo de uma década na sociedade americana, e somente a partir da segunda guerra mundial conseguiu se recuperar, pois a guerra acelera a destruição material das mercadorias, complexificando o ciclo da circulação capital. Outra crise econômica de escala mundial foi a do petróleo de 1973, criando uma nova agenda internacional de organização da economia mundial, ao mesmo tempo, novas diretrizes produtivas sustentadas pela química pura, tecnologia de informática e robotização da produção, substituição de matéria-prima natural por produtos sintéticos. De forma mais recente, com a crise de 2008, pôs em xeque, as diretrizes da mundialização do capital, como modelo econômico capaz de apontar solução viável para o capitalismo contemporâneo. Passamos duas décadas bombadeados com noticiários enaltecedores da globalização como capaz de unificar o mundo, numa padronização do trabalho, capital e técnica.
As crises econômicas revelam as contradições ideológicas da ciência economia política, desmontando suas certezas matemáticas de uma sociedade ideal, com seus modelos de controle. Essas crises econômicas geram implicações sociais e políticas em escala mundial: desemprego, aumento da violência, xenofobia, conflitos étnicos etc. Elas exportam mazelas, tornando insustentável pensar política de estabilidade econômica, capaz de resolver ou amenizar os conflitos sociais. Quem perde com a crise? Para responder essa pergunta é importante olhar para qual modelo teórico e\ou político escolhemos para organizar e planejar o mundo. Para uma matriz capitalista liberal, a crise irá propiciar uma evolução social – darwinismo social. Robert Kurz, em A biologização do social, diz:
“… O neoliberalismo, com sua pseudofísica ideológica das leis de mercado, soltou as peias de todos os demônios do barbarismo moderno e, assim, remontou à irracionalidade do “cientificismo social” do século 19. A naturalização da economia, porém, acarreta como consequência lógica a bestialização das relações sociais.”7 (KURTZ, 1996)

Para pensar sobre a contradição dialética da crise de 2008 impulsiona-nos a criar uma reflexão maior, que seja capaz de superar a barbárie social, pois para retornar a acumulação de capital, “… o resultado já não seria uma nova primavera de acumulação, mas, como disse Marx, a eventual queda colectiva na barbárie.”2(KURTZ, 2010) O cenário político internacional sinaliza para política conservadora em escala global, que revela a tensão entre as limitações de interesse entre um mercado global e as decisões políticas nacionais, numa tensão entre diretrizes da ciência econômica e a ação da política econômica, pois:
A economia das empresas ultrapassa todas as fronteiras, mas o Estado permanece – de acordo com sua natureza – limitado ao território nacional. O Estado é cada vez menos o “capitalista coletivo ideal” (Marx), com voz de comando ativa sobre o estoque de capital nacional. A velha “economia política” transformou-se em “política econômica”. (KURTZ, 1995)3

Chegamos a um paradoxo. Será possível garantir os direitos inalienáveis da revolução francesa? O pensamento filosófico da economia política reproduz a lógica de uma coletividade mediada pelo conjunto de indivíduos autônomos, mediados por um ideal de coletividade abstrato, com direitos inalienáveis dos homens e cidadãos: propriedade, liberdade, segurança da vida e uma perspectiva de futuro. Segundo Déclaration des Droits de l’Homme et du Citoyen, de 1789, do Art.
2.º A finalidade de toda associação política é a conservação dos direitos naturais e imprescritíveis do homem. Esses direitos são a liberdade, a propriedade, a segurança e a resistência à opressão. A lógica desse raciocínio econômico capitalista burguês está vinculado idéia de indivíduo autônomo, espelho do homem burguês, como direito inalienável, em que os indivíduos constroem vínculos sociais fundamentais para sustentar a própria vida e a sociedade. Essa autonomia transformou-se no dogma do liberalismo “laissez faire, laissez aller, liassez passer” (deixai fazer, deixai ir, deixai passar), em defesa da liberdade individual, contratualismo, estado mínimo etc. Por isso, Francis Green comenta que:

Segue-se daí que qualquer crítica ao sistema capitalista tem que enfrentar o argumento de que o que existe atualmente reflete desejos individuais, o respeito aos quais constitui sinal de sociedade “livre”. Assim, por exemplo, se há ricos e pobres, acontece isso porque os primeiros, ou seus antepassados, foram prudentes e frugais no passado, o que não aconteceu com os pobres. (GREEN, 1979, p.30)

A objetividade desse projeto político liberal, com a economia política está em garantir o sentimento de generalidade abstrata expressa pelas vozes de indivíduos autônomos, que revelam o ideal proprietário capitalista de uma comunidade imaginária4, um ethos político nacional. Para Benedict Anderson ao defender que a caracterização da nação dá-se nos seguintes termos

… é imaginada por que mesmo os membros da mais minúscula das nações jamais conhecerão, encontrarão ou nem sequer ouvirão falar da maioria de seus companheiros, embora todos tenham cm mente a imagem viva da comunhão entre eles. (ANDERSON, 2008, p.32)

ou quando reitera a concepção de nação que precisa ser imaginada como comunidade, como pertencente ao ethos coletivo, quando defende que

…é imaginada como uma comunidade por que, independentemente da desigualdade e da exploração efetivas que possam existir dentro dela, a nação sempre é concebida como uma profunda camaradagem horizontal. No fundo, foi essa fraternidade que tornou possível, nestes dois últimos séculos, que tantos milhões de pessoas tenham-se disposto não tanto a matar, mas sobretudo a morrer por essas criações imaginárias limitadas. (ANDERSON, 2008, p.34)

A Economia política ortodoxa clássica e neoclássica defende que a troca das mercadorias expressam a (re)produção da sociedade capitalista, as trocas sociais são mediadas por um cotidiano de reprodução e produção de relações de trocas com decisões que regulam o cotidiano social, pois “embora as decisões sejam, teoricamente, sobre numerosos assuntos, assumem todas elas a forma de troca, isto é, a decisão de consumir/produzir/comprar/vender uma coisa implica consumir/ produzir/comprar/vender de alguma coisa.” (HIMMELWEIT, 1979, p. 52) A vida comum impregna-se de relações mediadas pelos valores monetários, mercantis e de trocas, que atrofiam as relações ética e estética na sociabilidade cotidiana da sociedade. Por fim, é muita miséria reduzir a amplitude da arte, poesia, estética, filosofia, música e os afetos em função da cultura do dinheiro. Para Frederic Jameson, em pós-modernismo: a lógica cultural do capitalismo tardio,
As razões do sucesso da ideologia de mercado não podem assim ser procuradas no próprio mercado. Mas é melhor começar com a versão metafísica mais forte e mais abrangente, que associa o mercado à natureza humana. (JAMESON, 2008, p. 274)

Essa natureza humana espelho da sociabilidade mercantil, envolvida na concorrência e competição, reduzindo o modo de vida às regras de sociabilidade mercantis, em função de mobilidade social refém de modelo de vida patrimonial, buscando sucesso, prosperidade, eficácia, produtivismo nas tomadas de decisões do cotidiano. Tudo isso faz com que essas atitudes próprias de uma sociedade da cultura do dinheiro/capital seja a única forma de expressão da natureza humana, quase uma condição humana essencial e naturalizada. Marshall Berman, em Tudo que é sólido desmancha no ar, diz que:

O problema do capitalismo é que, aqui como em qualquer parte, ele destrói as possibilidades humanas por ele criadas. Estimula, ou melhor, força o autodesenvolvimento de todos, mas as pessoas só podem desenvolver-se de maneira restrita e distorcida. As disponibilidades e impulsos e talentos que o mercado pode aproveitar são pressionados (quase sempre prematuramente) na direção do desenvolvimento e sugados à exaustão; tudo o mais, em nós, tudo o mais que não é atraente para o mercado é reprimido de maneira drástica, ou se deteriora por falta de uso, ou nunca tem uma chance real de se manifestar. (BERMAN, 1986, p. 94)

Essa associação do mercado à natureza humana está na concepção liberal de compreender o trabalhador como capital humano, pois suas capacidades criativas, conhecimento, personalidade, apetite de trabalho são concebidas como características capaz de aumentar o valor econômico do capital. Nessa concepção economista, o capital precisa impregnar-se na corporeidade humana do trabalhador, como uma marca de ferro quente na pele, pois esse trabalhador será um investimento: formação educacional e profissional, aptidões e experiência como força de trabalho, que torne-se homogêneo e facilmente substituível. David Harvey, em O enigma do capital e as crises do capitalismo, alerta sobre a concorrência do mundo do trabalho e as distinções étnica e cultural, como política de competição e controle político, pois diz:

A força de trabalho potencial tem gênero, raça, etnia e tribo ou se divide pela língua, política, orientação sexual e crença religiosa, e tais diferenças emergem como fundamentais para o funcionamento do mercado de trabalho. Tornam-se ferramentas por meio das quais os capitalistas administram a oferta de trabalho em conjunto com os setores privilegiados da força de trabalho que usam o racismo e o machismo para minimizar a competição. (HARVEY, 2011, p. 57)

A lógica do capital humano resulta numa programação capaz de dirigir decisões de caráter cotidiano na vida do trabalhador, pois são restritas e reduzidas à reprodução dos valores capitalistas abstratos e formais, já que as relações sociais são postas numa regularidade normativa de controle da vida, em que embaraçam os valores liberais capitalistas –– liberdade, igualdade e fraternidade; às práticas de produção e consumo.
Creio que a humanidade está pela metade enterrada no cotidiano. Inumeráveis gestos herdados, acumulados a esmo, repetidos infinitamente até chegarem a nós, ajudam-nos a viver, aprisionam-nos, decidem por nós ao longo da existência. São incitações, pulsões, modelos, modos ou obrigações de agir que, por vezes, e mais freqüentemente do que se supõe, remontam ao mais remoto fundo dos tempos. (BRAUDEL, 1987. p. 09)

A liberdade está em poder decidir em função de um modo de vida consumista, em ter liberdade de escolha autocentrada, do indivíduo burguês. A transformação de indivíduo autônomo moderno em indivíduo consumidor. A sociedade do consumo foi debatida por diversos intelectuais nessa virada de século, desde Jean Baudrillard, Zygmund Bauman (1999), Mike Featherstone (1995) até Gilles Lipovetsky (1989) com um percepção compartilhada de identificação dessa sociedade como padronização das necessidades sociais, em que o consumo das mercadorias, também são extensões do consumos de signos ou mercadorias-signos, pois “o consumo surge como modo ativo de relação, como modo de atividade sistemática e de resposta global, que serve de base a todo nosso sistema cultural” (BAUDRILLARD, 1981, p.11)
A sociedade do consumo configura um imaginário sinergético entre cultura e consumo, que envolve política e economia num só ritmo de articulação da sociedade, revelando suas tensões e contradições, pois segundo Zigmund Bauman, em Vida para o consumo, diz que:
Na sociedade de consumidores, ninguém pode se tornar sujeito sem primeiro virar mercadoria, e ninguém pode manter segura sua subjetividade sem reanimar, ressuscitar e recarregar de maneira perpétua as capacidades esperadas e exigidas de uma mercadoria vendável. A “subjetividade” do “sujeito”, e a maior parte daquilo que essa subjetividade possibilita ao sujeito atingir, concentra-se num esforço sem fim para ela própria se tornar, e permanecer, uma mercadoria vendável. A característica mais proeminente da sociedade de consumidores – ainda que cuidadosamente disfarçada e encoberta – é a transformação dos consumidores em mercadorias; […] A tarefa dos consumidores, e o principal motivo que os estimula a se engajar numa incessante atividade de consumo, é sair dessa invisibilidade e imaterialidade cinza e monótona, destacando-se da massa de objetos indistinguíveis “que flutuam com igual gravidade específica” e assim captar o olhar dos consumidores (blasé!)… (BAUMAN, 2008, P. 20)

Para que se consolide a aliança entre estado e mercado é necessário mesclar um terceiro componente nessa articulação, que inevitavelmente depende da mídia e informação numa dinâmica capaz de criar simulação e sedução desse jogo político. Por isso, a trama entre mídia e informação co-substanciam a política-econômica, que em momento de crise política, econômica, catástrofe natural existe um jogo de construção de consenso político e imaginário, que só é dinamizado pelo ritual da sedução e simulação na comunicação social como controle político e econômico da lógica do capital. O capital torna-se essa força de sedução, que se apodera de todos os prazeres, afetos, representações e sonhos. A informação-capital faz a mediação de um desejo circular entre sedução, simulacro, dissimulação da realidade da produção social. Por isso, Jean Baudrillard, em Da sedução defende que:

Sedução/simulação, a comunicação, tal como social, funcionam assim em circuito fechado, reiterando através dos signos uma realidade impossível de encontrar. E o contrato social tronou-se um pacto de simulação, selado pela mídia e informação. Aliás, ninguém deve se enganar profundamente com isso; a informação é vivida como ambiência, como serviço, como holograma do social. E uma espécie de simulação inversa responde, nas massas, e essa simulação de sentido; responde-se a essa dissuasão pelo desafeto, a esse engano por uma crença enigmática. O conjunto circula e pode causar o efeito de uma sedução operacional. Mas a sedução não tem mais sentido que o resto, o termo só faz conotar uma espécie de adesão lúdica à informação simulada e uma imposição táctil dos modelos. (BAUDRILLAR, 1991, p. 186)

A informação-mercadoria ou informação-capital ao substituir através do simulacro social, os afetos, representações e sonhos precisa criar uma dinâmica de esvaziar e preencher a subjetividade dos indivíduos, os elementos concorrenciais dos mercados, a necessidade de fazer surgir novidades nas gôndulas do supermercado ressoa nas prateleiras existenciais. O capital humano também precisa reproduzir em outras extensões da vida os dogmas do capital, que através do jogo mídia e informação preenchem qualquer vazio da subjetividade consumidora. Enfim, segundo Gilles Lipovetsky, em O império do efêmero: a moda e seu destino nas sociedades modernas expõe a seguinte crítica:

Quanto mais os indivíduos são informados, mais se encarregam de sua própria existência, mais o Ego é objeto de cuidados, de autosolicitudes, de prevenções. Mesmo quando se empenha em não dramatizar, a mídia produz inquietude e angústia difusa, fonte de preocupações narcísicas. [ ] A mídia exibe quase tudo e julga pouco, contribui para ordenar o novo perfil do individualismo narcísico ansioso mais tolerante, para a moralidade aberta, para o Superego fraco ou instável.
Em muitos domínios, a mídia conseguiu substituir a igreja, a escola, a família, os partidos, os sindicatos, como instâncias de socialização e de transmissão de saber. É cada vez mais através da mídia que somos informados sobre o curso do mundo, é ela que nos passa os dados novos capazes e adaptar-nos ao nosso meio cambiante. A socialização dos seres por intermédio da tradição, da religião, da moral cede terreno cada vez mais à ação da informação midiática e das imagens. (LIPOVETSKY, 2014, 263)

A lógica do capital humano e dos valores da sociedade do consumo impulsiona um controle total, tanto no ambiente de produção e trabalho, como em outras esferas da vida cotidiana, do ambiente escolar, familiar, da religiosidade, da moralidade são preenchidos pela mídia e informação, como entretenimento, espetáculo e sedução. Parecendo um contra-senso, essas esferas da vida social foram fagocitadas pela paisagem midiáticas. Esse fato pode ser compreendido quando ligamos a televisão, em que existe uma ampla diversidade de produtos temáticos sobre religião,escola, família, partidos, sindicatos etc. As igrejas pentecostais predominam na programação televisiva de forma ininterruptamente revelando uma presença onipresente e onisciente, como também na extensa programação televisiva com entretenimento, educação e gastronomia. Enfim, alimentando de forma religiosa o corpo e a mente, nada pode cair em tentação fora da normalidade da lógica da informação-capital. Em um escala mais complexa de pensar o consumo, Lipovetsky, em Felicidade paradoxal; ensaio sobre a sociedade do hiperconsumo, diz que:
A simulação não é, evidentemente, o único caminho tomado pelo hedonismo experiencial. Uma outra lógica atua, atestada pelas estradas nas casas dos amigos, e perambulação, a ociosidade, a bricolagem, a cozinha, a decoração, as excursões, o gosto pela natureza, as práticas musicais e esportivas. Atividades que exprimem uma lógica de autoorganização individual do tempo livre, o desejo do hiperconsumidor de se reapropriar de seus próprios prazeres, de passar por experiências segundo um modo mais pessoal, não guiado, não orquestrado pelo mercado. De um lado, o hiperconsumidor deseja sempre mais espetáculos desmedidos, artefatos inauditos, estimulações hiper-reais; do outro, quer um mundo íntimo ou “verdadeiro” que se pareça com ele. (LIPOVETSKY, 2008, p. 65)

A abstração teórica da economia política liberal incorpora-se na prática social, superando a indeterminação do conceito de indivíduos autônomos, por um processo de relações de troca viva na produção capitalista, pois como toda atividade econômica tem propósito, tem finalidade social de espetáculo, sedução e afeto, que se realiza de forma completa ao suprir a necessidade de consumo. Portanto, para Simone Mhun, no artigo A soberania do consumidor redefine um conceito circular para economia política ortodoxa, pois

O conceito do homem como consumidor infinito era, e é, essencial à produção capitalista. Isto porque com a propriedade privada dos meios de produção, o homem como consumidor infinito no processo de troca transforma-se no homem como apropriador infinito – o capitalista – no processo de produção. A justificação dessa conclusão, baseada na premissa de que as necessidades são insaciáveis, é inerentemente ideológica e o respaldo do status quo na sociedade capitalista. (MHUN, 1979, p. 96)

O consumidor é aquele que observa o mundo como oferta a qual existe para suprir sua demanda, em que as relações são percebidas como paixões tristes e alegres, como processo de construção de sentido hedonista. Todas as relações tornam-se relações de consumo: ideologia, mercadorias, prazer, natureza, sentimentos, turismo etc. A oferta é para onde o consumidor dirige seu olhar, que sempre será um jogo de (in)satisfação e (in)completude. O envolvimento social é fragmentado, pois quem produziu, onde produziu e para quem produziu a mercadoria, não existe conexão, é expressão da separação entre produção e consumo. Se as mercadorias ofertadas no shopping são fabricadas na China ou Índia, sob quais práticas de trabalho não importa. Para o filósofo Boris Groys a relação entre produção e consumo teve uma inversão, em que a circulação (consumo) redefiniu as práticas sociais de organizar a vida social, pois:

Antes a produção era socializada, e o consumo, individual. Hoje o trabalho é extremamente especializado, individualizado: ele nos separa das massas, sendo que o consumo a ela nos une. Assim foi que, de lá para cá, a perspectiva do consumo se transferiu ao próprio trabalho: o trabalhador de hoje se vê como empregador, ou seja, como consumidor de trabalho que se contenta quando há trabalho o bastante e se entristece quando o trabalho rareia. Não é à toa que hoje em dia a pessoa é sempre confrontada com uma insólita pergunta: seu trabalho lhe dá prazer? Ora, o trabalho só pode obviamente dar prazer se não mais for trabalho, se for um bem de consumo entre muitos outros. Por isso as atuais ciências humanas e culturais partem da perspectiva do consumidor de modo quase automático.(http:// www1.folha.uol.com.br/fsp/mais/fs0306200105.htm)

Em momento de crise econômica existem impedimentos para realizar o consumo de forma automática e a pergunta “seu trabalho lhe dá prazer?” parece ficar impossível ou contraditória. Diante do silêncio dos economistas, partidos políticos e governos sobre o caráter da crise que afeta a vida cotidiana de milhões de pessoas no mundo. Essa incapacidade de responder sobre as conseqüências da crise faz com que voltemos a perguntar sobre o caráter da própria ciência econômica, como uma ciência particular que detém tanto poder, para executar planejamentos e diretrizes políticas que interferem na vida de milhões de trabalhadores no mundo. “Privilégio da minoria, o capitalismo é impensável sem a cumplicidade ativa da sociedade. É forçosamente uma realidade da ordem social, até mesmo uma realidade da ordem política; uma realidade da civilização.” (BRAUDEL,1987. p. 43)
Enfim, uma ciência com tanto poder de mobilização política em mãos de gente tão
especializada e desligada das pressões das demandas sociais, que são uniformizadas à lógica liberal
de transformar os interesses de uma classe social ao conjunto da sociedade Por isso, quando Marx
resgata essa abordagem histórica sobre a economia política, diz que:
A economia política, que antes era tratada por financistas, banqueiros e negociantes – portanto, em geral, por pessoas que tinham diretamente a ver com relações econômicas – ou por homens de formação universal, como Hobbes, Locke e Hume, para os quais ela significava um ramo do saber enciclopédico, apenas com os fisiocracias elevou-se a uma ciência particular e como tal passou a ser tratada. Como disciplina científica particular, ela acolheu tão amplamente as demais relações – políticas, jurídicas etc. – que acabou por reluzi-las a relações econômicas. Mas ela reservou essa subsunção a si de todas as relações apenas para um lado dessas relações, a elas deixando, quanto ao resto, um significado autônomo, fora da economia. A completa subsunção de todas as relações existentes à relação de utilidade, a elevação incondicional desta relação de utilidade ao patamar de conteúdo único de todo o resto é algo que encontramos, pela primeira vez em Bentham, no momento em que a burguesia, depois da Revolução Francesa e do desenvolvimento da grande indústria, não aparece mais como uma classe particular mas como a classe cuja condições são as condições de toda a sociedade. (MARX, 1985, p, 398)

O utilitarismo tinha, desde o inicio, o caráter de uma teoria geral da utilidade, mediado por valores éticos normativos, com pretensão de responder situações da vida comum dos homens, em torno da maximização da utilidade e da felicidade. O utilitarismo propõe como aumentar o bem estar dos indivíduos em sociedade, como uma questão moral, que interferia no direito, economia, política5. Mas esse caráter moral só se tornou pleno de conteúdo com a inclusão das relações econômicas, especialmente da divisão do trabalho e da troca de mercadoria em dinheiro e capital.
Sob a divisão do trabalho, a atividade privada do indivíduo torna-se uma regra geral; que Bentham à reduz a idéia de concorrência nas relações econômicas entre a renda fundiária, lucro e salário. “O conteúdo econômico transformou o utilitarismo, pouco a pouco, numa mera apologia do existente, na prova de que, sob as condições existentes, as atuais relações entre os homens são as mais vantajosas e de maior utilidade geral. Tal caráter ele conserva em todos os economistas modernos. (MARX, 1985, p. 399)
A lógica predominante da teoria neoclássica de auto-regulamentação e estado mínimo legitima que quando a política não é capaz de resolver o problema e o sistema entra em crise, a solução é a “mão invisível” do mercado.

Ela repercute as medidas tomadas, como a prática o mostra todos os dias. De modo que se acabou por crer, com razão ou sem ela, que as trocas têm, em si mesmas, um papel decisivo, equilibrador, que elas igualam pela concorrência os desnivelamentos, ajustam a oferta e a demanda, que o mercado é um deus escondido e benevolente, “a mão ínvisível” de Adam Smith, o mercado auto-regulador do século XIX, a pedra angular da economia, se nos ativermos ao laissez faire, laissez passer. Há uma parte de verdade, uma parte de má fé, mas também de ilusão. Pode-se esquecer quantas vezes o mercado foi manipulado ou falseado, o preço arbitrariamente fixado pelos monopólios de fato ou de direito? E sobretudo, admitindo as virtudes concorrenciais do mercado. ((BRAUDEL, 1987. p. 31)

Esse postulado busca legitimidade na história do capitalismo que superou tanto a grande depressão de 1873-1893, como da mesma forma a depressão econômica de 1929-1941. Na primeira crise a Inglaterra assumiu a função de recuperar a economia mundial; como também os Estados Unidos assumiu após a Segunda Guerra mundial. A questão comum entre essas duas depressões é a concepção de que em que momentos de crises a intervenção do Estado, como capitalista coletivo, torna-se a centro da solução da crise e depressão. Porém, nessa crise de 2008, o centro do capitalismo não possui um país capaz de assumir a vanguarda de uma diretriz política e econômica de superação da crise. Da mesma forma que o dogma da doutrina liberal de Estado mínimo não tem mais sustentação, principalmente, em momentos de crise. Como desde 1834, os Estados Unidos já teve mais de 35 ciclos econômicos de crises, em que ocorreu uma superação crescente e com maior magnitude nas duas guerras mundiais, implica numa normalidade da crise como forma da lei da “mão invisível” do mercado. A normatização da crise com a teoria dos ciclos econômicos de Nikolai Kondratieff, expoente dessa teoria dos ciclos, e que a cada 50 anos fecha um ciclo econômico, em que duas atribuições são percebidas: grandes investimentos em bens de capital, e a retração da depreciação dos ativos. Essa interpretação tem um caráter histórico de pensar os três ciclos: a primeira de 1790 a 1844, a segunda de 1851 a 1890 e a terceira de 1896 a 1929. Entretanto, o fechamento desses ciclos econômicos foram permeados de inovações tecnológicas, que contribuiu para a formação da teoria econômica de J. Schumpeter, que prosseguiu com à analise dos estudos de Kondratieff, pois ratificou o caráter das inovações tecnológicas na expansão capitalista e foi além em propor um quarto ciclo longo, em que as modificações tecnológicas romperam com os padrões de produtividade capitalista no mundo, pois tudo teve inicio com a petroquímica, o motor elétrico, a radiofonia, a televisão, a energia nuclear, que decorreu numa conexão global do capitalismo partindo dos satélites, à microeletrônica, à robótica, à fibra óptica até a internet. Ao mesmo tempo em que essas inovações tecnológicas foram decisivas para saída da crise de 1973-1974, conhecida como a crise do petróleo, para os Estados Unidos e Europa, criou uma perspectiva mundial ainda mais polarizado. Na coletânea de artigo Que crise é esta? Marcel Burstyn Identifica algumas características para pensar as vantagens competitivas no mundo, pois

O domínio de novas tecnologias apresenta-se como uma variável na redefinição da economia mundial. O desenvolvimento das biotecnologias deverá inviabilizar em grande parte o papel dos países pobres que atualmente têm suas economias baseadas na atividade agropecuária. A automação e informatização transformam a abundância de mão-de-obra barata, que até então se constituía em uma vantagem comparativa para o desenvolvimento industrial do Terceiro Mundo em um problema grave. (BURSZTYN, 1984, p. 19)

Ou quando afirma que

Enfim, aquilo que pode vir a ser uma saída para os países ricos tende a acarretar um agravamento do problema de ocupação de mão-de-obra nos países pobres e de industrialização subordinada à hegemonia do mundo desenvolvido. Além do desemprego, também o endividamento se apresenta como evidência mais marcante da crise econômica atual. (BURSZTYN, 1984, p. 20)

Diante desse quadro, constatamos que a saída para crise implica em um processo de aumento da pobreza em escala mundial. A decorrência de novas tecnologias, biotecnologia, automação industrial, química pura e informática foram a ampliação da capacidade produtividade, por outro lado, podemos afirmar que também aumentou o grau de perdedores no mundo, com a consolidação do mercado global. As formações do mercado global para Robert Kurz criaram condições absurdas e perigosas para o mundo, pois

Quando a política deseja impor limites à ação desenfreada do mercado, as empresas globalizadas logo ameaçam com uma “Fuga do Egito”. Isso vale também para as imposições ecológicas. Proteger os mananciais hídricos? Poluição do solo? Que tal repetir tais perguntas no México, onde se permite que o gado definhe aos montes, sem que os políticos dêem a mínima importância? Depois nós voltamos a conversar sobre a questão dos custos de produção…6 (KURTZ, 1995)

Esse mercado global criou articulações econômicas e políticas numa escala mundial entre os capitais, em que recursos naturais, energéticos, culturais e tecnológicos foram submetidos à lógica do capital. A partir do modelo teórico de Wallerstein sistema-mundo, em que todos os países são constituintes da produção e circulação mundial. Em que sempre o capitalismo, como projeto político e econômico, se propaga de forma mundial, em que cria eixos jurídicos, sociais e político de pensar o mundo num mesmo movimento de conduta da vida social. O capital tornou-se uma nova divindade do mundo contemporâneo7. Para conseguir realizar o grau de investimento do capital global é necessário transformar as riquezas naturais, tecnológicas e culturais num amplo e irrestrito mercado global, em que tudo virou mercadoria, em que o processo de consumo apresenta se de forma cultuada, em que todas as relações tornam-se relações monetária como cultura do dinheiro. Para Kurz a consolidação do projeto de globalização criou uma nova agenda mundial: globalização dos mercados, do dinheiro, do trabalho.

Mas qual foi, de fato, a mudança fundamental? O mercado mundial devassou as entranhas da economia nacional e sua língua alcançou, por assim dizer, a última das aldeias nos confins do mundo. Desde o início do século XX, a exportação de mercadorias foi crescentemente incrementada pela exportação do capital. A Ford não exportou apenas automóveis dos Estados Unidos para a Alemanha, mas também construiu, nesse país, uma fábrica para o mercado alemão. A Volkswagen, por sua vez, investiu nos Estados Unidos para suprir a demanda interna norte-americana. Assim, nasceram as empresas multinacionais, mas nem por isso a coesão das economias nacionais foi posta em questão. Sob a forma do mercado de câmbio europeu, o sistema de crédito emancipou-se do controle exercido pelos bancos nacionais. Isso aconteceu apenas com a nova qualidade da revolução microeletrônica: agora tanto as transações monetárias como mesmo os processos de produção material podem ser repartidos globalmente. O sistema de crédito emancipou-se do controle dos bancos emissores nacionais na forma dos euromercados monetários. Um especulador alemão pode operar com dólares no Japão; uma empresa japonesa pode tomar empréstimos em marcos alemães nos Estados Unidos. O mesmo vale para a produção: um produto vendido por uma empresa alemã no mercado alemão pode ser elaborado parte na Inglaterra e parte no Brasil, montado em HongKong e expedido do Caribe. (http://www1.folha.uol.com.br/fsp/1995/10/01/mais!/16.html. )

O discurso liberal e neoliberal, em torno da globalização, teve reverberação em escala mundial, em particular, nessas duas últimas décadas, em que o comércio global reconfigurou a percepção territorial, em que as fronteiras dos estados-nações tornaram-se anacrônicas à lógica de produção, distribuição, circulação e reprodução do capital global. George Soros comenta:

O sistema foi tão bem sucedido que as pessoas passaram a acreditar naquilo que o então presidente Reagan chamava da “mágica dos livres-mercados” e que eu chamo de fundamentalismo de livre mercado. Os fundamentalistas de livre mercado acreditam que os mercados tendem a um equilíbrio natural e que os interesses de uma sociedade serão alcançados se cada indivíduo puder buscar livremente seus próprios interesses. Essa é uma concepção obviamente errônea porque foi a intervenção nos mercados, não a ação livre dos mercados, que evitou que os sistemas financeiros entrassem em colapso. Não obstante o fundamentalismo de livre mercado emergiu como a ideologia econômica dominante na década de 1980, quando os mercados financeiros começaram a ser globalizados, e os Estados Unidos passaram a ter um déficit em conta-corrente” (http://www.contraversus.net/uploads/6/7/3/6/6736569/oc_a_crise_2007-2012.pdf)

A crise econômica de 2008 nos Estados Unidos levantou as questões teóricas sobre a crise, a partir da insuficiência analítica dos modelos matemáticos financeiros e uma reflexão histórica do predomínio hegemônico econômico e financeiro americano no século XIX. Para Luiz Gonzaga Belluzzo, em seu livro O poder americano, diz que:

Os Estados Unidos construíram sua trajetória de expansão econômica no século 19 sobre quatro vertentes: a inserção ‘virtuosa’ na divisão internacional do trabalho alinhavada pela hegemonia britânica, a finanças doméstica ‘desregulada’, o protecionismo comercial e os privilégios concedidos por seu Estado nacional aos promotores de negócios. Na verdade, o peculiar caráter ‘liberal’ (no sentido europeu) do Estado americano, desde a sua constituição, está relacionado com seu papel decisivo na garantia das normas da concorrência darwinista. (BELLUZZO, 2011,p4.)

Os ritmos dessa concorrência darwinista impregnou-se na financeirização da vida, em que os serviços financeiros assumiram a predominância frente as questões econômica, cultural e política dos EUA em escala mundial, pois o setor financeiro já corresponde por vinte porcento do PIB americano8. Esse mudança de diretriz impregnada pela financeirização criou uma rede de significações, que para o professor holandês de Estudos Globais e Sociologia Jan Nederveen Pieterse, em seu livro O fim do império Americano? defende que existem seis elementos para entendermos a crise americana numa retrospectiva histórica, que são “…Em primeiro lugar, é uma tendência comum das economias maduras; as economias se constroem primeiro na agricultura e depois pelo comércio, a indústria e os instrumentos financeiros.” (PIETERSE, 2009, P. 93) Como um movimento de acumulação primitiva de capital, em que ocorre uma transferência de mais-valia ou lucro de um segmento para outro na cadeia produtiva, como mecanismo para ampliar a taxa de lucro, migrando numa crescente da agricultura, comércio, indústria e finalmente capital financeiro.
Em decorrência desse movimento interno de acumulação primitiva de capital e de transferência de capital, para setores de rentabilidade maior. Esse movimento implica numa tendência mundial, pois “nesta época de globalização acelerada, a financeirização é uma tendência global. (PIETERSE, 2009, p. 93)” Esse movimento interno e externo dos países capitalistas, numa escala de concorrência global, induz que “a financeirização é a fase final dos ciclos hegemônicos, o ‘jogo final dos campeões’. (PIETERSE, 2009, p. 94)” Esse ciclo hegemônico enredaria numa busca de liderança mundial. Por isso, “os EUA têm tido um papel de liderança na financeirização da economia mundial.
Na esteira da globalização do fim do século vinte, Wall street, o tesouro americano e o FMI trabalham em prol dos interesses financeiros americanos. (PIETERSE, 2009, p. 94).” Para que essa movimentação sistêmica do capitalismo ocorra de forma regular e constituinte da programação econômica, política e cultural é necessário uma cadeia de tecnologias capazes de desenvolver uma nova cultura financeira 9 , pois “a financeirização foi promovida por inovações em engenharia financeira, que se tornaram possíveis pela combinação da tecnologia da informação com a desregulamentação. (PIETERSE, 2009, P. 95) A junção dessa variável só é possível num modelo social dominante, portanto, “o neoliberalismo como forma dominante do capitalismo desde 1980 caracteriza-se pela volta da hegemonia do setor financeiro. (PIETERSE, 2009, P. 95)”
Essa hegemonia do setor financeiro transformou-se numa crise da sociedade, da economia e do modelo teórico neoliberal, que está impregnado em diversas mediações, desde a teoria da ciência econômica clássica e neoclássica. Na contramão dessas ciências neoliberais retornamos à critica marxista para pensar a crise econômica e financeira. Em sua análise, Marx no livro III do Capital volume IV postula que:

“descobrir e descrever as formas concretas oriundas do processo de movimento do capital, considerando-se esse processo como um todo. Em seu movimento real, os capitais se enfrentam nessas formas concretas; em relação a elas, as figuras do capital no processo imediato de produção e no processo de circulação não passam de fases ou estados particulares. Assim,as configurações do capital desenvolvidas nestes livros abeiram-se gradualmente da forma em que aparecem na superfície da sociedade, na interação dos diversos capitais, na concorrência e ainda na consciência normal dos próprios agentes da produção” (MARX, 1985, p.41)

Esse ponto estratégico de conceber o capitalismo como um todo, permeado de disputas e concorrências entre os próprios capitais, cria as condições teóricas para analisar a relação entre crescimento econômico e crise do capitalismo.
As crises econômicas são decisivas para saltos de acumulação de capital, reordenam a concentração do capital. Depois da crise de 2008, a mídia anuncia fusões, falências e aquisições de empresas globais. Nesses momentos de instabilidades e crises econômicas e financeiras, as composições orgânicas do capital criam vida política para poder sobreviver, suas diretrizes políticas vão desde controle do capital financeiro, aumento do papel do estado como credor de capital, estatização de empresas falidas, aumento de crédito para consumo e saque da poupança dos trabalhadores e apropriação privada dos tributos públicos. Frente as matrizes ideológicas capitalistas surge resistência política de movimentos políticos organizados à perda de direitos trabalhistas (seguridade social, Fundo de pensão, FGTS, férias e flexibilização das leis trabalhistas).
A decorrência dessas matrizes políticas está em criar condições econômicas e financeiras para retornar as altas taxas de lucros, com a produção, circulação e reprodução do capital, perpetuando o capitalismo. Entretanto, não compreender o paradoxo de que essas medidas não irão frear a tendência da queda da taxa de lucro, a concentração de capitais e a monopolização da economia mundial. Nesse momento de crise os aspectos ideológicos do capitalismo são intensivamente aflorados, pois as matrizes clássicas e neoclássicas são apontadas como soluções reformistas para crise, pois

A ideologia, contudo, como aliás todas as demais formas de controle, assume sua maior importância em épocas de crise. O conhecimento mesmo superficial da história econômica ensina-nos que o capitalismo vive afligido por crises econômicas e isso intensifica o conflito de classes em numerosas esferas da sociedade, seja sobre a distribuição entre lucros e salários, desemprego e serviços sociais, seja sobre os direitos políticos e legais dos sindicatos. A esta altura, os trabalhadores, como classe, enfrentam a opção objetiva de derrubar o capitalismo ou experimentar as durezas e derrotas de suas crises. Por um lado, podem recusar-se a aceitar a manutenção de um sistema de produção e propriedade privada sincronizado com o critério da rentabilidade que, inevitavelmente, desemboca em crises; por outro, podem aceitar o ônus do desemprego e a luta distributiva mais intensa, gerada pela crise, e se reconciliar com mais um ciclo de produção capitalista. (FINE, 1979, p. 143)

Sem compreeender o papel politico e esconômico dos meios de comunicação de massa e das midias sociais, como esferas de poder para consolidar o capital financeiro mundial, e seus mecanismos de reprodução. Não poderemos sair da crise politica e econômica catapultada a partir de 2008. Precisamos avançar nessa compreensão teórica e politica para enfrentrarmos os desmandos do capitalismo global ou sofreremos com suas mazelas genocídas.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

  1. O resultado dessa liberdade do mercado financeiro pode ser ilustrado pelos valores demasiadamente distintos entre a riqueza que resulta dos títulos financeiros primários e derivativos e a riqueza real produzida na economia mundial (somatória do PIB de cada país). De acordo com o Bank for International Settlements (BIS), o valor total em títulos derivativos e outras inovações atinge US$ 600 trilhões, contra um PIB mundial calculado em US$ 65 trilhões.
  2. (KURZ, R. A biologização do social, 1996, Disponível em: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/1996/7/07/mais!/ 13.html). Acesso em 11 de junho de 2017.
  3. (KURZ, R. A teoria de Marx , a crise e a abolição do capitalismo, 2010, Disponível em: http://www.obeco-online.org/rkurz363.htm)). Acesso em 11 de junho de 2017
  4. KURZ, R. Perdedores globais, 1995. Disponível em: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/1995/10/01/mais!/16.html. Acesso em 11 de junho de 2017
  5. Imagina-se a nação soberana porque o conceito nasceu na época em que o Iluminismo e a Revolução estavam destruindo a legitimidade do reino dinástico hierárquico de ordem divina. Amadurecendo numa fase da história humana em que mesmo os adeptos mais fervoros os de qualquer religião universal se defrontavam inevitavelmente com o pluralismo vivo dessas religiões e com o alomorfismo entre as pretensões ontológicas e a extensão territorial de cada credo, as nações sonham cm ser livres -e, quando sob dominação divina, estão diretamente sob sua égide. A garantia e o emblema dessa liberdade é o Estado Soberano.(ANDERSON, 2008, p.34)
  6. Se ele trabalhar, seu tempo será ocupado, e ele terá sua carne e sua cerveja, ou seja, lá o que mais seus ganhos lhe permitirem, e ele não fará um gesto sem conseguir alguma coisa, a qual ele não obteria de outra forma. Este estímulo é necessário para que ele dê o máximo de si, mas mais do que isso não é necessário. É necessário que todo esforço que ele faça tenha sua recompensa; mas não é necessário que essa recompensa seja tão grande, ou quase tão grande, quanto a que ele teria se trabalhasse em outro local. O confinamento, que é sua punição, ao impedir que ele leve o produto de seu trabalho para um outro mercado, sujeita-o a um monopólio, do qual o contratador, seu senhor, tira, naturalmente, como qualquer outro monopolista, o maior proveito que pode. (P. 54 ,BENTHAM, 2008)
  7. KURTZ, R. Perdedores globais, 1995. Disponível em http://www1.folha.uol.com.br/fsp/1995/10/01/mais!/16.html ).Acessado em 11 de junho de 2017)
  8. O capitalismo deve ser visto como uma religião, isto é, o capitalismo está essencialmente a serviço da resolução das mesmas preocupações, aflições e inquietações a que outrora as assim chamadas religiões quiseram oferecer resposta. A demonstração da estrutura religiosa do capitalismo, que não é só uma formação condicionada pela religião, como pensou Weber, mas um fenômeno essencialmente religioso, nos levaria ainda hoje a desviar para uma polêmica generalizada e desmedida. Não temos como puxar a rede dentro da qual nos encontramos. Mais tarde, porém, teremos uma visão geral disso. Em primeiro lugar, o capitalismo é uma religião puramente cultual, talvez até a mais extremada que já existiu. Nele, todas as coisas só adquirem significado na relação imediata com o culto; ele não possui nenhuma dogmática, nenhuma teologia. Sob esse aspecto, o utilitarismo obtém sua colaboração religiosa (BENJAMIN, 2013, p. 21).
  9. Nos anos noventa, o setor financeiro, o de seguros e o imobiliário superaram a indústria na composição de renda nacional EUA. Os serviços financeiros tornaram-se o maior setor econômico, com 20 porcento do PIB, acima da indústria, com 12, 5 porcento, e acima do segundo setor, o de saúde, com 14 porcento. A financeirização, ‘um processo pelo qual os serviços financeiros, em sentido amplo, assumem o papel econômico, cultural e político dominante em uma economia nacional’ , possui várias significações. (PIETERSE, 2009, P. 93)
  10. A desregulamentação dos setores de telecomunicações e de energia alimentou a festa. ‘Durante o boom, os setores de energia e telecomunicações emitiram cerca de um trilhão de dólares cada em novas dívidas, um verdadeiro banquete para o setor de serviços financeiros.’ Daí nasceu a feitiçaria financeira que produziu os escândalos Enron, WorldCom, e HealthSouth. (PIETERSE, 2009, P. 95)

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