CONSCIÊNCIA DA MUNDANIDADE

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por Urbano Nojosa

O materialismo histórico resgata a idéia do filósofo italiano G. B. Vico, do lema Vero ipsum factum, — Verdadeiro é o fato. Vico foi o precursor, já no período pré-moderno, a reconhecer o homem como sujeito histórico. Ao concebê-lo como ser que constrói, através de sua ação mundana, a sua própria realidade. Esse pressuposto teórico foi decisivo para configuração futura do materialismo histórico pensado por Karl Marx.
O materialismo histórico redefiniu o conceito de filosofia, ao postular o caráter transformador e histórico dos projetos teóricos de sociedade. Diante do predomínio do Idealismo Alemão, principalmente pelas idéias de Hegel, do Espírito Absoluto, como sendo a grande máxima da filosofia, mediada a partir da relação entre autoconsciência e consciência, Karl Marx desmistifica essas idéias transcendentais do homem e da sociedade, ao definir a filosofia como condição para uma interpretação transformadora do mundo.
A concepção teórica de Marx de conceber um método analítico-expositivo, que constrói suas categorias de análise da realidade, a partir um referencial histórico-social. A base conceitual da pergunta filosófica de Marx encontra-se numa conexão entre a idéia e a realidade, ou melhor, a conexão entre a crítica filosófica e o seu próprio meio material da realidade. Por isso a referência teórica marxista de privilegiar a “mundaneidade”, desde as obras do jovem Marx, em particular com A Ideologia Alemão (1988), sobre as idéias transcendentais da filosofia alemã, como constata a citação abaixo:
Totalmente ao contrário do que ocorre na filosofia alemã, que desce do céu à terra, aqui se ascende da terra ao céu. Ou, em outras palavras: não se parte daquilo que os homens dizem, imaginam ou representam, e tampouco dos homens pensados, imaginados e representados para, a partir daí, chegar aos homens em carne e osso; parte-se dos homens realmente ativos e, a partir de seu processo de vida real, expõe-se também o desenvolvimento dos reflexos ideológicos e dos ecos desse processo de vida. E mesmo as formações nebulosas no cérebro dos homens são sublimações necessárias do seu processo de vida material, empiricamente constatável e ligado a pressupostos materiais. (MARX, 1988. p 37.)

A crítica filosófica marxiana estabelece um esclarecimento histórico-social sobre o mundo filosófico, em que desmistifica o discurso da filosofia como algo transcendental, distante do mundo de vida da sociedade e sem uma temporalidade histórica. Ao criar essa nova perspectiva histórica de conceber o debate filosófico, Marx cria pressupostos de análise sobre o mundo, não a partir de referenciais dogmáticos, que fazem parte da reflexão dominante no idealismo transcendental alemão, principalmente com o movimento hegeliano. Por isso, Marx insiste em afirmar que:

Os pressupostos de que partimos não são arbitrários, nem dogmas. São pressupostos reais de que não se pode fazer abstração a não ser na imaginação. São os indivíduos reais, sua ação e suas condições materiais de vida, tanto aquelas por eles já encontradas, como as produzidas por sua própria ação. Estes pressupostos são, pois, verificáveis por via puramente empírica. (MARX, 1988. p 37.)

As mediações entre formação de consciência, idéia, conhecimento e conceito, numa visão marxiana, somente podem ser compreendidas a partir da ação cotidiana dos indivíduos, pois são elementos definidores da vida social. Nesse aspecto, as categorias e/ou conceitos são compreendidos como determinações histórico-sociais. Essa premissa rompe com a tradição de conceber o mundo filosófico, a partir de parâmetros teóricos de autoconsciência, que permeou por toda modernidade.
Marx ao expor sobre a gênese da consciência individual e social nega qualquer pressuposto abstrato para mediar a relação entre homem e mundo. Toda existência humana é concebida como uma condição histórica, em que primeiro “os homens devem estar em condições de viver para fazer história”. Depois, precisa criar “a ação de satisfazê-la, e o instrumento de satisfação já adquirido conduzem a novas necessidades — e esta produção de novas necessidades é o primeiro ato histórico.” Num momento posterior, em que supera a condição primaria de viver, e além de suprir suas novas necessidades precisa relacionar-se com outros homens para criar um processo coletivo de procriação e reprodução social. Entretanto, para a concepção marxista, esses três momentos da atividade social coexistem simultaneamente desde os primórdios da história.

Outro paradigma teórico de Marx, decisivo para o interacionismo sócio-discursivo, é a compreensão histórica da formação da consciência individual e social do homem.
Quando diz

Verificamos que o homem tem também “consciência”. Mas, ainda assim, não se trata consciência “pura”. Desde o início pesa sobre “o espírito”a maldição de estar “contaminado” pela matéria, que se apresenta sob a forma de camadas de ar em movimento, de sons, em suma, de linguagem. A linguagem é tão antiga quanto a consciência — a linguagem é a consciência real, prática, que existe para os outros homens e, portanto, existe também para mim mesmo; e a linguagem nasce, como a consciência, da carência, da necessidade de intercâmbio com outros homens. Onde existe uma relação, ela existe para mim: o animal não se relaciona com nada, simplesmente não se relaciona. Para o animal, sua relação com os outros não existe como relação. A consciência é, naturalmente, antes de mais nada, mera consciência do meio sensível mais próximo e consciência da conexão limitada com outras pessoas e coisas situadas fora do indivíduo que se torna consciente; é ao mesmo tempo consciência da natureza que, a princípio, aparece aos homens como um poder completamente estranho, onipotente, inexpugnável, com o qual os homens se relacionam de maneira puramente e perante o qual se deixam impressionar como o gado; é, portanto, uma consciência puramente animal da natureza (religião natural). (MARX, 1988. p 38.)

A capacidade de estruturar toda uma genealogia da consciência, dentro das formações históricas, propiciou uma metodologia de análise capaz de dimensionar o processo de formação da consciência social. Assim como, a postura de determinar ao conceito e a linguagem, a dimensão de determinações histórico-social, desmistificando os pressupostos teóricos do idealismo alemão. A contribuição do materialismo histórico para estruturação conceitual de outras ciências é um fato inquestionável. E, em particular, referente ao nosso estudo sobre capitalismo editorial, em que constrói pressupostos sobre linguagem e ação humana, como mediações necessárias para compreendermos as relações sociais.

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