Pará Má!

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JESSÉ DE ANDRADE ALEXANDRIA

Partiram da prainha do Igarapé Cujupe na madrugada. O Fé em Deus chegará a porto seguro. É o que desejam, ao se benzerem, mestre Lauro, Zinho e Dijé. Todos da embarcação empurram-na até o rio, com o auxílio de dois companheiros de profissão, ambos do Deus me guie.O igarapé baixou metro e meio com a vazante, e o Fé em Deus fundeou na lama da prainha. Os troncos sob o barco rolam pouco, presos nas raízes do igarapé. Por isso, os músculos dos três embarcadiços doem e os ossos estalam. Arrastar o barco até a água lhes custa mais do que calos nas mãos. Durante a viagem, o coração do mestre palpitará sobre a carta náutica. 444 milhas até Fortaleza, saindo de Alcântara. A partida ainda lhe traz aquela friagem na espinha, vinda das vagas da incerteza, e mais ainda por ser sua última viagem. Depois, a aposentadoria pelos trinta e cinco anos como marítimo. Começou aos quinze, menino inseguro. Em poucos dias, assomará ao balcão do Instituto de Aposentadoria dos Marítimos, para apresentar a papelada. Quando recebeu sua carteira de marítimo na Capitania dos Portos, logo que atingiu a maioridade, imaginou-se dando baixa nela muitos anos depois, acreditando que se lembraria, no futuro, de quando, naquele exato instante, se imaginou despedindo-se da profissão num tempo longínquo. E hoje, sem se dar conta, conta os dias, ansiosamente, para a entrega do documento, numa expectativa mais insegura do que firme.
Janeiro é o mês das grandes marés e das tempestades nessas costas equatoriais do Atlântico Sul. Mestre Lauro conhece o caminho náutico, guia-se também pelas estrelas, mas, olhando os nós de marinheiro que enfeitam um pequeno quadro do barco, o caboclo teme borrascas nos caminhos do mar. Não escutem a Uiara! Essa advertência, dita pelos mais velhos nos igarapés, desde a foz do Amazonas, acompanha-o até o mar alto. Singrarão a 20 nós e esperam chegar no dia seguinte, de manhã, ao porto do Mucuripe. Mais de um dia de viagem.
A água do igarapé é quase fria. Os pés, ainda que solados pela lida, recebem as farpas e as ostras das raízes submersas. Vamo! Ajuda! Empurra, caboclo! Êêê! Vai, vai! Canuta! E o barco atinge a água, pouco a pouco perdendo peso, flutuando, entre as raízes que o fazem bandear para o lado oposto. Mestre Lauro segura o punho do indiozinho: Agradecido, filho. Deus lhe pague. O jovem timbira sorri com franqueza, a mesma da ibá que atrás frondeja e lhe ensombrece o rosto.Seu irmão o segue mata adentro, como gatos-do-mato na escuridão. Vão colher ingás maduros para a viagem. O quilombola Dijé já os colheu para o Fé em Deus. Frutas frescas, além das provisões costumeiras para a viagem: a água, a carne seca, o óleo, a farinha, o café, o açúcar, o sal e o pão dormido. Em breve, os dois timbiras seguirão mestre Sérgio. A noite é verde, pois os patauás filtram a luz da lua minguante, jaciangaibora, através de suas palhas verdejantes. Horas depois partirá. o barco-irmão Deus me guie e voltará na semana seguinte abarrotado de pescados. Mestre Sérgio, que maneja aquela embarcação, conhece as estradas do mar como os sulcos das palmas de suas mãos: do Canal de São Marcos ao de Maranguape, pesca, de corrico, atuns e cavalas. A juventude dele o levará mais longe: Guiana e Bahia. Sempre costeando, cortando as vagas dias a fio, cindindo as espumas salgadas com a quilha do Deus me guie, livrando-o das procelas e dos arrecifes. Transportará, também contrabando da Guiana: rum e charutos cubanos, uísque, cigarros, chicletes e calças americanas.
Mais um pouco, já se escuta o barulho gorgolejante do motor do Fé em Deus, e mestre Lauro anima a marujada com uma canção: Fui dançar no meu batel… O negrume da noite engole o barco na Baía de São Marcos, quando já se veem as luzes de São Luís, dançando ao som dos batuques do tambor de crioula, que vararam a noite e ressoam madrugada adentro. O barco vai pesado, depois de ter flutuado leve, ancorado no igarapé. Dijé, Zinho e mestre Lauro o carregaram com a mercadoria que entregarão no Porto do Mucuripe. Não podem dizer a ninguém o que levam. Um segredo que os perseguirá para sempre, ainda que guardado no fundo do oceano.
Mestre Lauro navega firme, embora apreensivo, contando sua vida no mar de maneira já saudosa: a família criada com a paga das viagens de marinheiro mercante, as promessas de emprego na Capitania dos Portos depois da aposentadoria, o sonho de ser, um dia, prático de barra, a resistência de não sucumbir, para tanto, à politicagem do patronato, o medo de acomodar-se aos cinquenta anos, pois ainda não se sente velho o bastante para aposentar-se.
Raia o dia, o Fé em Deus singra modorro e, horas depois, já se vê ao longe o delta do Parnaíba, carregado de detritos que alimentarão os peixes desse mundão de água, sustento de tantos caboclos. Em poucas horas, os marítimos chegam ao mar em que navegou, no passado, Chico da Matilde, o Dragão do Mar, homem resistente como o mulungu de sua embarcação, prócer abolicionista. Dijé avisa: Já entramo nas terra do Dragão… Quilombola alcantarense, Dijé sabe da importância do jangadeiro cearense para seu povo e conta novamente, como se fora novidade para os demais, as proezas do líder, quando impediu o tráfico negreiro no porto do Mucuripe, histórias narradas pelos embarcadiços daquele cais alencarino. Zinho, um caboclo robusto, conhecido por sua valentia e sinceridade, escuta as histórias fumando um cigarro de palha, absorto, com os olhos vivos, quase ausentes, não por agastamento, senão por uma pertinaz certeza de que uma de suas paixões o espera no cais de São Luís.
E veem o mar de Bitupitá, o farol do Trapiá no Camocim, adiante a Encantada Jericoacara, reino submerso sob o Farol do Serrote, e, ao cair da tarde… a viração.
Disse-me Dijé, anos depois, que vagou pelo mar por dia e meio, até ser encontrado por um barco lagosteiro do Acaraú. Contou-me que viu, a cabeça enfiada nas vagas, os longos cabelos de Iemanjá, como cordas entrelaçadas, enfeitadas de conchas, a pele negra, tatuada de escamas de prata, o vestido azul, bordado de rendas e pérolas, dançando entre peixes e cavalos-marinhos, ao som do batuque do tambor de crioula, percutido por golfinhos. Não creram na hierofania, senão que o náufrago Dijé delirava.
Enquanto a tempestade balançava, enfurecida, a embarcação, Mestre Lauro retirou a porta da cabine com duas marteladas certeiras nas dobradiças enferrujadas e, antes que o barco fosse engolido pelas vagas do mar revolto, o marítimo atirou-se às águas, agarrado ao pedaço de madeira. Gritava para os outros marinheiros abandonarem o Fé em Deus. Viu Dijé pular com uma boia, a única do barco, e Zinho lançar-se ao mar como um peixe solitário, que salta sem deixar vestígio.
No fim da madrugada, quando o tempo amainou, a jangada São Pedro, que voltava para Camocim, resgatou mestre Lauro. Vagara por doze horas, flutuando sobre a tábua de madeira. A pele do mestre se engelhara. Engolira muita água. Delirava, falava palavras incompreensíveis aos jangadeiros que o salvaram. Cícero, um dos mais experientes, de força descomunal, pulou no mar e carregou o náufrago até a lateral da embarcação. Contam — algo bem pouco crível — que arrastou o mestre pela camisa, com os dentes, nadando de costas, sob a tábua. Um dos jangadeiros, Lino, puxou-o para cima da jangada, que ia carregada de pescados. Os homens deitaram-no no centro da embarcação, junto aos cestos de peixes, e se puseram em seus postos, nas laterais, na proa e na popa. Mestre Manuel Jacaré a conduzia com o remo. Quando recobrou plenamente a consciência, mestre Lauro perguntou por seus companheiros: Cadê meus companhero, Dijé e Zinho? Manuel Jacaré contou-lhe que não encontraram os demais nem puderam procurá-los porque não fazia bom tempo.
Quando chegaram à praia do Camocim, mestre Lauro desceu da jangada, mas não tinha forças para ajudar seus benfeitores com a embarcação fundeada. Cícero, Chico, Lino e Manuel foram descarregando os peixes, enquanto os atravessadores já se aproximavam. Manuel disse que esperassem, pois que iam levar a jangada até a areia e ajudar o náufrago a recuperar-se. Puseram os troncos de carnaúba sob a embarcação e rolaram-na até a croa seca. Mestre Lauro, sentado, exausto pelo esforço, é ajudado pelos jangadeiros. Tá melhor, companhero? — pergunta Cícero, pondo a mão em seu ombro. Mestre Lauro apenas responde: Pará má! Pará má! Cícero não o compreende: O home ainda tá delirando, Manel. Engoliu muita água. Mestre Lauro apenas lhe diz, fitando-o com certa melancolia: Ê mar! Ê mar! Balança a cabeça e descansa o rosto sobre as palmas das mãos marcadas.

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