E há também um protesto em meio à tarde

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Vito Antico

A voz está desafinada junto ao violão, vai e vem. Para, para muitos, um louco, para outros, um protesto-desabafo de sobrevivência.

Palmas pro músico brasileiro por favor muito OoooobrigaAaado,
que Deus abençoe esta nação,
Vamo ter um aumento de salário abaixo da inflação, isso é anticonstitucional,
não se pode pagá abaixo da inflação o governo vai pagar um salário abaixo da infração, vamos se unir-alguma ong algum instituto pra lutar por um salário melhor para o povo brasileiro.
Nós temo uma biodiversidade maravilhosa, nóis temo um povo maravilhoso trabalhador, mas nós temos um… governo corrupto e sujo que ganham bem e ainda roubam e saqueiam o povo.
Vamos orar por essa nação!
Vamos ir pra rua, em busca dos nossos direitos.
Agradeço,
Desculpa… o desabafo,
mas eu tenho que falar porque é muita desonestidade com o povo brasileiro receber abaixo da inflação do salário mínimo,
é uma poca vergonha,
que deus nos ajude que nóis temo que se mover e se mobilizar contra esse aumento abaixo da inflação, quem puder me ajudar,
me ajude por favor.
A moeda cai à mão:
– Que deus abençoe!

Ôõô,
é corintchá daora
rockenroll

Entre-estações,
em meio à malha,
praquê?

As pessoas já não são as mesmas destes bairros, nem as mesmas que compuseram o arranjo da canção “Rapaziada do Brás”:

(a canção, ouvida de fundo, vai crescendo conforme o texto chega… Mas,

Deixemos o estilo canção da música acima; exatamente, ao lado.
Para quem somente olha por fora – ou para dentro – somente corre mais um trem que se avalancha em direção à sua rota, ao caminho de cada um, pelo destino quase coincidente, quase consciente, do barulho comunicado aos ouvidos de um meio de transporte ao destino em miscelânea com outras atividades comuns.
Porém, entre esse momento de comunicação com os nossos sentidos até um outro existente, há um limite que foi rompido e que não se bastou somente àquele que se comunica, pelo outro e para o outro, o receptor do comunicado: daqui até lá, de lá até aqui.
Esse limite pode ser chamado de linguagem, mais especificamente: o da linguagem em sua cultura.
Nós aprendemos a dialogar pelas linguagens feito multidões e, portanto, no processo inverso, a nos comunicar culturalmente através do conjunto de linguagens existente em nós pelas multidões sísmicas da língua. De um a um, de um para todos. Porém, mesmo que toda linguagem possa ser comunicada, nem toda comunicação faz-se efetiva ou criativa, seja qual for o receptor cultural da mensagem linguística: animal, objeto, gente… Ou o que poderíamos imaginar de nosso mundo. Desse modo, existem linguagens que só podem ser comunicadas se traduzidas pelo afeto. Aliás, a maioria delas subsiste por meio de tal fonte. Considerem-se o fato das relações dos animais conosco; da própria arte, uma amizade, ou de como variadas culturas veem a morte.
Mas se quisermos a extensão desse conceito, também podemos nos comunicar sensitivamente em linguagens pela tradução entre o que existe em nós e o resto do mundo, por aquilo que se traduz na gente.
Nos comunicamos com tudo que tocamos, sentimos, ouvimos, falamos… Somos extensões autônomas das coisas que já existiam e das que criamos. Mesmo que nos queiram convencer do contrário: que nós somos separados dos objetos porque nós fomos os criadores deles. No máximo, a partir daí, os objetos seriam as nossas extensões para o mundo, e somente para um mundo útil, que não tivesse inutilidade alguma para se prestar ou cantar, pois, se para chegar ao mundo precisamos de um punhado de objetos úteis para depois disso chegarmos de fato ao mundo que queremos, no fundo queremos dizer que, sobre a nossa inutilidade, para cada objeto útil que criamos, estamos mais longe do mundo que queremos, apesar de termos mais instrumentos para usá-los, e muitas vezes, instrumentos distantes da prática que tanto pregamos pelas inversas. Por fim, se substituirmos as coisas – por esse objeto de texto – pela política, o objeto também se torna catastrófico visto nesse sentido utilitário. Porém, aqui, pelo inútil-útil, substituiremos esse objeto pelo Metrô de São Paulo.
Voltemos à linguagem:
E graças a essa fonte cultural de criação, desde os bondes gramáticos, gerações inteiras de máquinas aprenderam em linguajar repente do verbo a junção dos dialetos das engrenagens dos transportes públicos misturados com a língua idiomática das pessoas, a falar um pouco mais alto no palato de dentro comido pelas gargantas dos vagões e bondes da cidade, cada qual à sua época – mas não tanto para a criação do incômodo, pela ironia –, a fim de popularizar o ruído-barulho em conversa, comércio, caminho, silêncio. Tema que fez Machado de Assis, em uma de suas crônicas relativas ao bonde, nos falar sobre um dos bons modos de utilização moral-cidadã do veículo, à sua época:

ART. VII Das conversas
Quando duas pessoas, sentadas a distância, quiserem dizer alguma coisa em voz alta, terão cuidado de não gastar mais de quinze ou vinte palavras, e, em todo caso, sem alusões maliciosas, principalmente se houver senhoras.

E pelas crônicas dos bondes, ficou-se o aqui e o agora. De um bonde que tece na gente outros modos costumeiros de cultura. Bonde-outro de multiplicidades cidadãs. Os pés, as carroças, os automóveis… Algo contínuo entre as tradições das feiras comunitárias, centros comerciais, camelódromos e apresentações de artistas e marreteiros que correm pelas ruas. Contínuo também pela cultura dos povos árabes incorporada nas culturas dos povos ibéricos, que depois deslocaram-se para o continente latino-americano por um vagão transcontinental marítimo chamado nau, sobre o que Oswald de Andrade versará ao trajeto e à cultura brasileira de: transatlântico mesclado.
Misto de som-voz pelas músicas faladas do mundo.
O caso: da oralidade intransigente como mistura moída de um espaço vivido, talvez comum demais aos nossos ouvidos para diferenciarmos semelhantes lugares de vivências. Entre os vagões, a vida que dê passagem. Pois nada pela prática comum da rotina cotidiana ginga-se em comum, normal. Pois o que está dentro às vezes não se vê. Sente-se.
O passageiro que espera num movimento sem espera.
Num quê de passagem…
A paragem de canto, vigília.
Pois, do circense ao passageiro, tem-se outras coisas também. Feitas de um chão escoado à rua num plano de solo sísmico. Por muitas vezes a rua só existe por um estatuto de cidadão que vai além da condição de pessoa jurídica e estatística. Rua, rio férreo de fuligens sólidas e cidadanias grávidas em parto. A cidadania no conjunto por mais que um pacto, muitas vezes malvisto, ignorado em canalhice. Sente-se. O cidadão como um fazedor de coisas grandes e miúdas.
E nessas idas e vindas de corações sentidos, a canção dos anos vinte (“Rapaziada do Brás”) retorna e tudo se esquece, ou quase, a quem se lembra…

…e as cordas de um violão
Cantando em tom plangente
Aqueles ternos madrigais

Mas já são outros tempos e não cabe ao presente um saudosismo sem cor, perigo iminente que se pinta pouco a pouco com as cores de um Deus que possui “a família acima de tudo” e “o Brasil acima de todos”. Deus torpe. De um Brasil que não se aguenta pela sua própria potência cultural, porque vivê-la em todos os seus contextos através de um gosto médio de classe como ideologia em convivência com os movimentos alternativos da cidade é justamente o que se torna insuportável à vida.
Tempos outros.
O metrô, hoje, nos canta.
Em voz e violão, eles nos dizem.
Dizem e cantam sobre o estilo: “Eu vim, no início, do pop, né, na verdade eu comecei com o rap, e depois de ter uma vivência com grupo, dupla…”, regateou com o destino, “era um rap mais pesado, sabe…”, e daí, veio um conhecimento a mais, entre o passado e o presente.
E foi nesses meios que para ele a composição de mundo ganhou mais corpo, mais voz:
– Depois eu fui percebendo, me conhecendo musicalmente, e fui tendo essa liberdade de me aprofundar do que realmente eu sou, do que realmente eu gosto.
São eles: a voz e o violão… diretamente do The Voice do radinho de pilha do Metrô de São Paulo, o artista Dunk, e a sua música, “Hawaii”:

Eu passo aí
Busca praír
Pro hawaii, mas…
Talvez a gente encontre um lugar tranquilo
Pra gente relaxar e apreciar um vinho
eu e você,
Só eu e você…

A porta dá o caminho. A apresentação acaba.
Fiiuu… ecoa o assobio de um vendedor que entra sobre o vagão. Rápido, o vendedor abre a voz:
– Primeiramente ó, um excelente dia e uma abençoada viagem para vocês, pessoal, trazendo promoção…
Dois homens ocupam o mesmo espaço. A passageira Ana Paula, de quarenta e dois anos, deposita o dinheiro à bolsa de um dos homens, sorridente. Agradecido pelo reconhecimento com o seu trabalho. O outro continua o anúncio…
Por outro sorriso, Dunk retribui:
– Agradeço, amiga. Brigado, viu!
Dunk acabara de receber o primeiro trocado do dia, algumas moedas, e talvez alguma nota de dois no próximo vagão, vinte, cinquenta… “Um apartamento mobiliado”. Ou como conversam os MC’s Menor, Sávio e Henrique na estação… “Já”:
– Vários tipos de comida!
– Já recebi cerveja, refrigerante, chocolate, lanche vegano, dinheiro de outros países, um asiático. Seda, direto…
“… na minha mão, barras de chocolate Twix, pessoal”
Passa um, passa em dois, e Dunk corre ao corredor com o violão em punho semiguardado sobre a capa do instrumento. Passa-se. Com sua bolsa… Costurado ao chapéu simbólico, deste artista e de tantos outros desfabricadores do ócio. Pois é naquilo e sobre aquilo que se deposita em troca o que o afeta, seja chocolate ou dinheiro; um sorriso entre balas de goma. Um flerte e a esperança de um dia melhor aos outros… Uma paranga, um balanço de corpo, o molejo ao ambiente tocado pelas batidas múltiplas de um instrumento; uma surpresa, e um outro qualquer objeto sem valia para o dinheiro. Também se chega à atenção própria, que é sempre a instável passageira das paragens dos vagões. São artistas de tudo que existem ao recíproco, sem as métricas fixas de um cachê, produtores, sonoplastas. Somente a voz; a música. Na maioria das vezes uma caixinha de som ou um instrumento sempre cumpre a maior parte da tarefa, o resto é desejo, ofício; vontade e talento.
Passa-vagão:

Dona da situação,
Mexe com meu coração,
Provó-ca mais quente intenção,
Eu quase perco a noção…
Mas bate coração eu me amá-rro nela,
Ela é daqué-las, tipo Nutella,
Que é doce e se não fosse hoje,
eu não faria tan-ta questão
Faz-mó-tempão
Que eu nem… te trombava
Ficava tão brava,
Marrenta, bolada,
No quarto brisá-va,
Se não foi do nada,
Esquéce as ciladas
E todas as brigas passaaadas…

E a música segue ao embalo nos ouvidos cheios de olhos em direção a Dunk. Quanto a isso, ainda nos conta um dos MC’s, Henrique, pelos bancos da estação Guilhermina-Esperança, por suas lembranças de des-encontros:
– Até número ganha…
Teve uma vez que eu tava rimando no vagão, era no trem… Era eu e outro moleque. Nóis desceu pra vê o dinheiro, e trocar um papo pra voltar. Aí chegou uma tiazona e falou,
– Menino! Minha filha tá pedindo o seu número,
Mano… eu comecei a rachar o bico.
– Aí eu passei.
E assim o metrô vai se fazendo como coisa que não para, num acontecido de uma rede social e forma passada de uma terra movediça. Corrida e trilhada. E é por esse mesmo motivo que Dunk, no meio de todo calor, faz sentido pela igual sensação cinética, diz, dos “caras que vivem de metrô em metrô na correria do dia a dia é isso; é movimentação, tá ligado?”
Ávida rotina de um corre de vida que se leva do jeito que dá pelo movimento vivente que o mantém, duplamente, dos pés às máquinas, dos outros… Dunk resgata em fala a sua vivência, “Sai dum vagão, vai pra outro, pula um outro, vai pra outro…”. Sem respiro ou muita pausa, aqui ninguém dorme no ponto.
– Eu acho legal, acho bacana! – declara Ana Paula, no meio ao resto das vozes mil que ecoam pelo sertão-vagonete… – Vai pegar oito barra por dez… – Ah, alegra… Como é que é seu nome mesmo? Alegra meu dia sim, e assim, todos nós temos direitos e cada um escolhe da maneira que é bom para você próprio, né? – Tem dois pega dois – Não sou contra as pessoas venderem, não sou contra na-da, entendeu?! Nada… Porque todo mundo tem o direito de ir e vir, então… – Pessoal, vai ser diferente hoje, na promoção! – Como eu quero ter o meu direito e podar o do outro? – Pega oito barra por dois… – Dunkoficial, né? – Quatro barras do twix grande por… – Depois eu vou entrar lá.
…tem cinco reais, quatro por cinco…
A porta se abre:
– Valeu, pessoal!
E célere para pegar o vagão do lado, antes que a porta se feche, o ritmo de Dunk caminha rápido… O sentido? Corinthians-Itaquera, linha 3, vermelha, do sistema metroviário de São Paulo. Enquanto o Metrô, no refrão, ruma para o “Hawaii”:

Aproveitar cá-da seguuundo,
Eu quero conhecer o mundo
E se você vier comigo-aê…
A gente segue junto
Não foge não…

Versos que soam também como um recado à fuga, ao sonho existente em Dunk, cada vez mais presente, de um não foge não traduzido pela sua fala, “tô aqui e tô pra conquistar TUDO”. 

Yuri veio de Natal para São Paulo, capital, num expresso que não vem a pé nem pelos trilhos; hoje, não mais. Dunk afirma o trajeto e o motivo: “Natal era um lugar que eu vivia, mas eu sempre tive esse sonho de crescer, CRESCER, e São Paulo é isso, você tem que tá batendo de frente contra tudo que vier de negativo”.
Hoje, do Ipiranga ao Brás – geralmente a primeira estação em que ele costuma desembarcar quando pousa sua vida pela linha vermelha, joga-se, e segue ao trabalho –, Yuri faz do ritmo o acontecido trocado, dito, sobre o trajeto que vai e vem todos os dias: “pelo menos 50 conto eu tiro”. E quanto ao resto de seu contraponto num sorriso às dificuldades já passadas em cada trajeto de mundo, não se abala, vai pela prática vivida, “O que vier de negativo você tem que transformar em positivo e pensar positivo, que é assim que você vai conseguir.”
A estação do Brás está agora em meio ao bairro numa manhã de quarta-feira.
E nessa toada, o dia começa de trilhos que são corridos como reflexos de um sorriso no rosto para o Riograndense que se transmite pelo mesmo carisma aos passageiros. Para ele, “o metrô é uma forma de você recarregar”, porque mesmo que a pessoa não esteja num dia bom, e diz a ele: “momentos de eu não tá muito bem, mas-porém, sorriso no rosto, tocando”, e não só ao vagão, mas aos trilhos da vida, “é isso que importa!”.
E entre o fazer música e produzir do som, a vida anda como um peixe corrido pelos internos de um vagão pescado pelo rabicho das catraias ambulantes dos trilhos. Para Dunk, cada vagão canta-se de modo aleatório, não escolhe muito. Trabalha assim. Cada um, cada um. São trilhos como rios de ferro no conduto à eletricidade. Águas turvas. Rio de peixe esguio, difícil de pescado. Mas que não se escama num timbre à rede, “porque isso reflete muito nas pessoas, as pessoas elas gostam, muita gente às vezes tá num dia ruim, você tem que transparecer a coisa boa numa música, sabe, coisa boa, aquilo que levanta a pessoa que tá ruim, que não tá muito bem, entendeu?”.

E não somente em afeto de peixe vivo por essas águas, característica que Dunk sempre volta a reafirmar sobre a diferença do sorriso num dia sobre as pessoas: “Se você não tiver legal as pessoas não vão se sentir conectadas”. Porque é isso, se o vagão não for pescado de alegria pelo reconhecimento ao trabalho que se tem feito com a própria verdade, que vai além do dinheiro e ganha as plataformas digitais em forma de seguidores, para que motivo a arte adentraria aos vagões? Para quê, senão para provocar o passageiro? “Muitas dessas pessoas, ao divulgar minhas redes sociais, sempre vêm no meu direct, manda mensagem, ‘mano, poxa, cê melhorou meu dia’, ‘sua música é linda’, ‘poxa, amei’, ‘me conectou, pô, porque eu não tava num dia legal’, então isso que é interessante.”
De um movimento que se faz no seguinte: Dunk termina o show, aplausos, olhares de todos os tipos, estranhos, aqueles que olham sem olhos pela indiferença, os que gostam e ajudam, e os que gostam e não ajudam… “Tem esse lance, a galera vê o trabalho, porém, não tem uma condição ali pra ajudar, não tem um dinheiro ali, tendeu? Tanto é que eu falo, quem não quiser ajudar, o importante é que confira o trabalho, que é o mais importante.”
E mesmo que isso seja importante, a corrida pelo peixe de cem ainda se faz óbvia, mesmo que em trocados de dois entre moedas de uma bolsa a outra. E por esse trajeto solta junto aos vagões a negativa-positiva de um movimento equilibrista entre a dança de um reconhecimento digital e o seu caminho junto à produtora que hoje o empresaria; pelo que deve ser levado em conta a cada situação. “É claro que o dinheiro ajuda a gente pra fazer as nossas coisas, pra gente bater as nossas metas, mas o mais importante aqui do vagão, da música, é compartilhar o som”. E finaliza ao expressar-se em relação ao Instagram: “Por dia, eu ganho uns 35 seguidores”.

E nesse jogo faz-se entre o mínimo de “cinquenta conto” num dia mais ou menos de duas horas ao teto de cento e dez no expediente da manhã até o final da tarde. Dunk revela ao falar por si: “Você consegue bater essa meta, pelo menos eu consigo bater, cento e dez, por aí, e ainda um almoçozinho grátis! Se a gente conseguir cento e pouco a gente vai almoçar, e ainda almoça eu e você, no shopping. Tem que ser num shopping”.
O esquema: a partir de uma quantia alta de dinheiro até o meio do dia – “Só que tipo… geralmente eles trocam de manhã, de tarde, mais no horário de almoço”, como afirma Menor junto a Sávio em direção à linha verde – rege-se o costume entre os trabalhadores dos vagões de transformar o troco em moeda de troca para um almoço em alguma rede de fast food nas praças de alimentação dos shoppings estacionados ao longo das estações na grande extensão dos 22 quilômetros da linha vermelha. Isso, em uma conversa direta com gerente do estabelecimento. E pela venda do almoço para o pagamento da janta…
O papo vai e os trilhos veem. E os trovadores do metrô continuam a cantar vidas ao marretarem produtos. São as esquinas trilhadas de vagões canibais que se enlaçam pelas ruas como os camelôs nas calçadas e as casas conduítes de solos fincados às terras até os estabelecimentos de comércio prostrados em redes multinacionais transatlânticas. E como quem incorpora a cultura da cidade e a prática aos poros junto ao dinheiro na vontade e a sistemática do capital ao sangue, segue-se um trabalhador dos ferros que correm pelas vozes. E dos vagões, aos poucos feito um canto bruto, a música de Dunk bate por uma lembrança presente.
Não foge não.
Estamos no primeiro vagão de Dunk nessa manhã de um meio de semana. Uma quarta feira, que varia como os dias em além e aquém – para antes e depois – das fronteiras.

Agora, entre o meu ser e o ser alheio
A linha de fronteira se rompeu 1

De um antigo bairro, o distrito do Brás. Aqui…
Alguma história há de ter.
Mas deixe o Brás para já num segue geral de cantador… porque,
antes de São Paulo ganhar o estatuto de cidade levado na beca e no diploma da coroa portuguesa era tudo terra de Piratininga numa fantasia de colônia. Aqui. Pronto. O nome: São Paulo de Piratininga, tava dado, pois era tudo freguesia que se chamava… E nem essa palavra de “bairro” existia. A gente vivia mais pra freguesia clerical, vila e roçado; feito matão, sertania e biboca, onde padre arqueava diocese e decidia num vera-cruz amarrado em cristo o que era e o que não era, tudo pelo ser… Enquanto muito dantes – no tempo, fundada a Companhia de Jesus em (1549) – Padre Antônio Vieira já tinha se revirado na moita e na tristeza do escondido pelo olho da terra na saudade, ao mesmo tanto que tentava no exercício catequético-jesuítico se escabrunhar no mistério do povo indígena… Foi aí que sem perceber já estava sendo comido e vieirando o rosário de onça na pinta… tatu molambo, suçuarana de meia-lua na grota, caboré de catiça no cimo da porta e urubu puranga descalço num rala-e-rola de vaivém que pega carniça… ao mesmo tempo que o pau-de-arara e o cacete da tortura já comia no povo todo daqui.
antes de Brasil no hoje.
antes de São Paulo de Piratininga.
antescidade.
em bairro de Brás, então…
nem se fala.
Daí, desse olhar de meio padre meio bicho, vem o relato sobre a inconstância constante das populações originárias desse extenso meio de terra índia e litoral, rapado na costa quente da trindade, na conta de cristo, dum resguardo adentro, e daí, de tudo, vem o relato comunicado de linguagem escrito por Vieira, da maleabilidade e da resistência num mesmo corpo de balaio. A diferonça entre um e outro. Como podia…
Comia, sobre o mármore e a murta? 2
Foi também que depois veio o tambu, o candongueiro e uns outros punhados fundamentos das mandingas africanas e afro-mouriscas dos navios negreiros. Coisa de bocaqui… bocalá… Mais gente trazida em tradução, escravidão e genocídio permitido por lei. E após muito sangue, cantoria de vissungo, pernada de quilombo, frutaria na resistência, estupro geral, trajeto de fuga no rastilho da fome, charqueada exposta, cachaça amonada, falta de pataco, condição desigual e luta, calhou-se dum povo solto em tragédia e gambiarra no sistema de uma antropofagia neural entre o riso e a naturalização da desgraça, onde ainda existe de tudo do mesmo que existia antes, naqueles tempos de antigamente; mas não forjado no igual, agora costurado na diferença; quase-igual.
Muito disso numa época antiga de palavra e inúmeros idiomas: não esse que sentimos à gente assim, escrevivendo nos tempos agora. Resumidamente, somente uma manifestação escrita sobre o punhado de linguagens e troncos existentes que aqui ficaram e por aqui se foram, vai lá, de língua geral para não se esquecer do específico:
– Eu era ixé.
– Tu feito indé.
– Você no aé.
– Mas, aê, aí…
Tudo que sobra de nós-iandé para o futuro volta-se ao tempo como quem enreda vós-penhe a vida no dia a dia. Há quem fale que é destino, história, contação ou um pedaço do corpo divino nas passagens desse mundo. E tem quem desacredite, diz, é só a consequência de um processo, eles-aintá, um enxerto mal feito da relação entre a visão de futuro em planejamento à tradição construtiva e a realidade na cultura.
Pois, então…
O bairro do Brás chegou num pé grande geral pelo nome de José Brás, um proprietário de terras com as léguas maiores que as línguas, dono de grandes extensões de mundo por aqui… Diz-se que ajudou muito um certo povo duma certa região que se fez ao redor de uma certa capelinha num chão batido de nome Bom Jesus… Daí que vem de sobrenome o sobre aviso da localidade: do Brás.
Assim…
Capela de Bom Jesus do Brás.
Lugarejo que figurou a realidade do povo e foi-se num caminho de rato fazendo teia de rua por Jesus afora. E como quem ganha o jogo do bicho pra-pagação-propagada da dívida de morte num trava-lingualigero pelos próximos anos na contação de história, deu voo na sorte mirrada, e o que era pra numerar gavião, deu bicho esquisito de lado e metade doutro, bicho antropomórfico do futuro. Em 1888, num assinado de Lei Áurea por econômico interesse e pela mangação corrida numa pressão internacional em relação à escravidão no Brasil, veio o carimbo de liberdade para os negros escravos…
E com o cerol comendo na rabiola do açoite em querosene feito candeeiro, numa acorrentada libertação, os negros foram deixados ao léu do dia-margura ao combusto de noite-mascava. E ali onde se chumbava a terra lixada no meio ao Brás, entre o Aterro do Carmo e as raízes do Rio Tamanduateí, a ranhura de vila-terrão foi se fazendo até chegar num viradouro entre estação brasada: com pinta de bairro e formosura de cidade, além das grandes extensões de terra griladas por fazenda. E durante esse meio de história até hoje aportaram em São Paulo e no Brasil italianos, espanhóis, japoneses, libaneses, alemães, coreanos, bolivianos, haitianos…
No Brás, predominou a imigração italiana, que aportou ao território brasileiro cerca de 1,3 milhão de pessoas entre 1870 e 1920, o equivalente atual diário de passageiros que vagam pela linha 3 vermelha do Metrô, conduto férreo leste-oeste, inaugurado justamente pela estação de nome Brás, em integração com a linha azul norte-sul, e por entre-histórias, a construção do trecho Sé-Brás numa amarração linhada por onde outras passagens viriam e tantos outros passageiros seguiriam.
E entre tempo-estação:
Hoje, bem hoje, ao trajeto itinerante da linha três vermelha do conjunto metroviário de São Paulo, nas entre-estações de Brás e Pedro II, apresenta-se Yuri-Dunk com a sua voz grave de leve rasqueado efeito ao fundo de suas cordas, e entre o instrumento e a pessoa, a voz ecoada pelas carruagens urbanas:
– Bom dia, pessoal! Nessa manhã de quarta-feira vim trazer para você um pouco de música e do meu projeto musical… Me chamo Yuri, essa música se chama “Hawaii”, e vai ser lançada no final do ano, em dezembro. Espero que vocês gostem!
E Dunk, à hora do cachê, após o canto chegar aos ouvidos de todos, finaliza:
– Viva a música, pessoal, uma salva de palmas!
Uma semana abençoada a todos vocês
agradeço a atenção-não-quero atrapalhar a viagem, vim pra tár-compartilhando essa minha música que vai sair no final do ano, certo? Então pra quem quiser acompanhar os outros trabalhos do danque também a partir de hoje nas minhas redes sociais é só seguir lá no Instagram, danqueoficial, DêUeNeKá oficial clica no link que já vai direto para o meu trabalho,
pro meu projeto,
mais uma vez, DêUeNeKáoficial, dunkoficial, clica no link e é isso
agradeço uma boa viagem para vocês eu agradeço vou passar minha bolsa para quem quiser deixar a sua contribuição em prol da música, da minha arte,
eu agradeço.
A porta se abre.
Ponto.
Segue o relatório:
Ao discurso de Dunk passaram-se trinta e quatro segundos, pouco mais de qualquer comercial anunciante que nos diz alguma coisa. Ao contrário da mensagem em seu meio, de meio a mensagem, o vagão requer o excesso da mensagem que deve ser captada aos ouvidos excessivos do resto-passageiro. Em outras e poucas palavras: se o trem corre em seu ritmo, a fala o acompanha, e os ouvidos também. A repetição faz-se essencial e se repete por uma condição de mídia dos trilhos. De uma condição a ser vagada, levada. Quase que fonográfica também por se tratar de um músico-vagão que o toca. Pois não é tudo que pode ser tocado nesse espaço; e nem tudo pode ser falado. Os ouvintes são os que carregam as peneiras de suas casas às ruas, e destas, a sua extensão mesma: os vagões, entre-outros, os transportes públicos. Pois, se um artista, especificamente, não souber circular entre os variados gostos e perfis, ou ao que diz Henrique, “se não for uma música família, uma música que vá bater fácil nas pessoas, ele não vai durar muito, tá ligado?”.
O motivo?
“Porque não pega, não dá muito dinheiro, o pessoal quer dar risada, quer sentir alguma coisa”, e por isso, o passageiro deseja e opta por algo que seja não somente transmitido, mas que o tire e o desloque de sua situação habitual. Vagão após vagão. Mas claro, existem exceções, e muitas. Há quem trabalhe muito com algo mais consciente e sério que se faça exceção ao ambiente das locomotivas trilhadas, e ainda assim, garante-se o sustento. Pois, mesmo que o ambiente se repita minuto após minuto, nada gira-se ao comum e repetitivo. Os vagões são pleonasmos, redundantes; não iguais…
E assim como a história do mundo, das ruas de um bairro, de um canto paródico; uma crônica ou um jornal, ou de uma estação de trem para uma de rádio, que são instrumentos para outras coisas instrumentáveis, o vagão também se predispõe ao mesmo jogo de linguagens-práticas, pois a todo momento em que acontece uma apresentação – marreteiro-artista ou músico-marreteiro – vai-se pela condição do funcionamento do próprio objeto ou a instrumentalização dele, no caso o trem-vagão. E retornamos à mesma questão proposta sobre o uso dos objetos para chegarmos ao mundo, ao começo deste terceiro capítulo. Então… Como usá-lo de tal forma que se rompa o predisposto, o seu uso comum de fabricação, o seu funcionamento lógico? E como fazer com que o vagão não se faça sempre um objeto de utilidade com uma lógica programada às pessoas e, por conseguinte, à cidadania cultural?
No seguimento de mobilidade, a passagem de texto:
Os transportes públicos nos servem e são servidos para a mobilidade de um ponto A até um ponto B, C, D… Seja qual for o destino. O carro e a bicicleta servem-se do mesmo modo de pensamento em uso, mas com as suas limitações de instrumento e meios diferentes de um para o outro. Da mesma forma são os modos de trabalho nos vagões. Cada objeto serve para uma função, e para cada função são necessários instrumentos específicos para a sua realização. Seguindo a linha: então, seria completamente injusto por direitos pedir a todos as mesmas condições e formas de usar um mesmo objeto – senão, para que existiriam as coisas e para que fim elas seriam feitas, somente para um meio-fim, para atingir um fim puramente técnico?
Pois aí é que entra a sociedade em todo o seu potencial político de tensões construídas, conflitos sistematizados, acordos burocráticos e significados próprios. E aí que entram também os modos poéticos do cotidiano, que se torna um arranjo da cultura e um modo de viver a rotina por uma disciplina do caos. Cada um que faz parte desse grande coletivo pratica o uso das coisas de forma diferente, seja por gosto, obrigação, ou um ato de própria escolha. Desse modo, os vagões são mais que apenas um meio de transporte que nos leva de um ponto a outro. Claro, são feitos para isso, e funcionam. Mas também funcionam como uma extensão da própria rua e de todos os elementos que existem pela rua, e, por esse sistema de linguagens e culturas, podemos chegar até os usos da voz ou mesmo, num sinônimo, os modos de fazer arte.
Assim, os transportes públicos em seus usos de mobilidade urbana – e segue-se aqui o principal deles, os nossos movimentos – são trajetos objetivos pertencentes aos lugares em que vivemos e para onde vamos para nos mostrar como anda a nossa condição democrática de direito através de nosso próprio corpo, ou seja, de como caminham nossos direitos que deveriam se tornar – e nos tornar – comuns a todos.
Quando um marreteiro, artista ou músico, entra aos vagões. Eles não estão somente transformando o uso do transporte público em um modo de trabalho. Há também a exposição das vísceras culturais – de sons, luzes, cheiros, ritmos, vozes, poesias, caminhos, desinteresses, dinheiro, mazelas… – daquilo que está dentro e fora das ruas. Quando um “pedinte” ou morador de rua entra por esses espaços: eclode-se a existência de uma amostra significativa da desigualdade existente em nosso meio social de movimento, ali, à nossa frente, sem os dados extensos e complicados do IBGE, num microcosmo extensor de um espaço maior que não cabe à visão somente pelos nossos olhos: precisamos da visão de todos os olhos-sentidos que praticam os (des)direitos pelos caminhos sinestésicos aos territórios através de cidades-bairros-ruas-casas-cômodos-corpos-atos-existências-sensações-pensamentos… Até chegarmos a uma força poente da criação do universo, seja qual for seu significado-factual à vida prática em comunhão com o coletivo, para uma política que vá além de uma divindade científica puramente técnica.
É desse modo em pensamento que os atos de palavra versados por FBC fazem maior sentido ao complexo do que somos e por onde estamos politicamente como sociedade. Segue-se novamente:

Seja o Deus e sua Ciência,
É de tanto perseguir a perfeição
Que chegamos à excelência 3

E a partir daqui, já ao leme da estação em rua trilhada,
veem-se
nos limites de um beijo-linguagem
hieróglifos de-entre-estação
acelerados à realidade
praquê?

meioamúsica
oritmo
cidade

  ...e assim chegamos ao primeiro destino traduzido sobre olhados trens, alheios, 

pelas rimargens
da voz…

REFERENCIA BIBLIOGRÁFICA:

1.Waly Salomão – Câmara de Ecos

  1. Os que andastes pelo mundo, e entrastes em casas de prazer de príncipes, veríeis naqueles quadros e naquelas ruas dos jardins dois gêneros de estátuas muito diferentes, umas de mármore, outras de murta. A estátua de mármore custa muito a fazer, pela dureza e resistência da matéria; mas, depois de feita uma vez, não é necessário que lhe ponham mais a mão: sempre conserva e sustenta a mesma figura; a estátua de murta é mais fácil de formar, pela facilidade com que se dobram os ramos, mas é necessário andar sempre reformando e trabalhando nela, para que se conserve. Se deixa o jardineiro de assistir, em quatro dias sai um ramo que lhe atravessa os olhos, sai outro que lhe decompõe as orelhas, saem dois que de cinco dedos lhe fazem sete, e o que pouco antes era homem, já é uma confusão verde de murtas. Eis aqui a diferença que há entre uma e outras na doutrina da fé. Há umas nações naturalmente duras, tenazes, constantes, as quais dificultosamente recebem a fé e deixam os erros de seus antepassados; resistem com as armas, duvidam com o entendimento, repugnam com a vontade, cerram-se, teimam, argumentam, replicam, dão grande trabalho até se renderem; mas, uma vez rendidas, uma vez que receberam a fé, ficam nela firmes e constantes, como estátuas de mármore: não é necessário trabalhar mais com elas. Há outras nações, pelo contrário – e estas são as do Brasil – que recebem tudo o que lhes ensinam com grande docilidade e facilidade, sem argumentar, sem replicar, sem duvidar, sem resistir; mas são estátuas de murta que, em levantando a mão e a tesoura o jardineiro, logo perdem a nova figura, e tornam à bruteza antiga e natural, e a ser mato como dantes eram. (Sermão do Espírito Santo).
  2. FBC – Auto Ajuda

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