Decifrar-se ou ser engolido?

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MANOEL FERNANDES

Ao nascermos nos encontramos em profundo desamparo. O ato de nascer é realmente um parto.
O processo de crescer, por sua vez é sempre dolorido, doem até os ossos quando o corpo vai mudando seu tamanho e formas.
Ao enfrentarmos o mundo estabelecemos com ele uma relação em que precisamos saber de nós para sobreviver a ele. O mundo é sempre vasto, com horizontes que se ampliam desde o berço e se espalham por todas as longitudes.
Ao escolhermos não confrontar o mundo, como acontece a alguns de nós e nos apequenamos, somos nós que ficamos cada vez menores e negamos as nossas potência humanas, negamos o adulto que habita a criança que deveríamos deixar de ser e aquilo que poderíamos realizar.
No filme O Menino do Tambor esta é a metáfora, diante do trauma de uma Alemanha devastada pela psique nazista, a criança resolve negar o mundo idiota dos adultos e não mais crescer, mas ilustra com sua atitude de permanência na infância, uma negação à sua possibilidade de transformar o mundo e por isso sucumbe à ele.
Os filhos e filhas que não confrontam os pais, por motivos vários, perdem certa oportunidade de crescerem e se tornarem livres. Quando Freud diz que é necessário matar os pais não está propondo um crime, está propondo que o ato de confrontar-se com dois seres imensos, gigantes, pai e mãe, permitem a você adquirir a condição de reconhecer a si mesmo como um outro, diferente, capaz de andar com as próprias pernas, amparar seus próprios passos.
A atitude de crescer dos filhos e filhas também permite a pais e mães que reconheçam a existência autônoma de seus rebentos, a alteridade que conforma o mundo da necessária diferença entre os seres e a autonomia individual que recria de modo permanente as escolhas da vida. Por isso pais e filhos aprendem juntos, se educam nas contradições que são próprias das nossas condições de existência.
A criança, por sua vez não pode deixar de habitar os adultos e talvez por isso, Manoel de Barros nunca admitiu envelhecer, já que para ele, chegar aos oitenta anos, era como cruzar os umbrais da terceira infância.
A educação que inicia quando do primeiro choro, desde o parto e desde o inaugural desamparo, deve ser para o mundo que possamos deixar como herança melhorada as gerações futuras.
Os pais, certo dia, voltam a ser filhos daqueles que cuidaram em seu desamparado começo.
Atirar-se à vida, como ensinaram meus pais, com livros, andanças, lutas e tragédias. Para como Zélias e Arcanjos que saíram dos lugares pequenos onde foram partejados para ser imensos para si, para os filhos e para o mundo.

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